Capitulo 3

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Os dois dias que se passaram desde a nossa chegada à Itália foram uma mistura de deslumbramento e ansiedade. Florença continuava a me surpreender com sua beleza, mas também me deixava desconfortável com tantas novidades. A casa era incrível, mas, em meio à grandiosidade de tudo, eu sentia falta da familiaridade das ruas da minha cidade, dos meus amigos, da rotina que eu conhecia.

Agora, eu estava no banco de trás do carro, observando as paisagens bucólicas pelas janelas, enquanto minha mãe dirigia em direção à minha nova escola. Era um dia ensolarado, o céu de um azul profundo sem nenhuma nuvem. A brisa que entrava pela janela aberta era fresca, carregando o cheiro das colinas e das árvores ao redor.

-Amanda...- minha mãe começou, quebrando o silêncio. Ela parecia tranquila, mas havia uma certa cautela em sua voz. -Hoje, além de pegar seu uniforme, vamos acertar os últimos detalhes da sua matrícula.

Assenti, mas não consegui evitar um suspiro nervoso. -Tá... e como é essa escola? É... muito diferente?

Ela sorriu, olhando rapidamente para mim pelo retrovisor. -Bem, é uma escola de elite. Tem uma estrutura incrível, uma ótima reputação. Mas não se preocupe, Alessandro tem bastante influência por lá. Ele garantiu que tudo dê certo para você.

O termo "escola de elite" ecoou na minha mente, deixando um peso no meu estômago. No Brasil, eu estudava em uma escola pública simples, onde as coisas eram descontraídas. A ideia de estar em um lugar completamente diferente, cercada por pessoas que provavelmente não tinham nada em comum comigo, me deixava apreensiva.

-E se... eu não conseguir me adaptar? Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.

Minha mãe estendeu a mão e tocou meu joelho de leve, tentando me tranquilizar. -Eu sei que é muita mudança de uma vez, filha. Mas tenho certeza de que você vai se sair bem. Você sempre foi forte e inteligente. Vai dar tudo certo.

Tentei sorrir, mas a ansiedade estava ali, firme no fundo do meu peito. O carro virou uma última esquina, e eu senti o coração acelerar quando avistamos os portões da escola. Eram grandes e imponentes, de ferro forjado, e se abriram automaticamente quando nos aproximamos.

O que vi em seguida me deixou sem palavras.

O campus era imenso. Um prédio gigante e antigo de arquitetura clássica que parecia um castelo, ao redor tinha um vasto jardim central, onde árvores centenárias e canteiros de flores coloridas pareciam sair de um conto de fadas. A escola mais parecia um palácio do que um lugar para estudar. Fiquei completamente intimidada com o tamanho do lugar e a sofisticação que emanava de cada detalhe.

Minha mãe estacionou o carro e saímos. Ela fez um gesto para que eu a acompanhasse, e fomos recebidas por uma funcionária da escola que nos guiou até a área onde eu deveria pegar o uniforme.

Caminhando pelos corredores, tudo me parecia impecável. O chão de mármore, as paredes com pinturas antigas, as janelas altas que deixavam entrar uma luz suave. O silêncio ali era quase solene, interrompido apenas pelo ecoar dos nossos passos. Eu me sentia pequena em meio a tanta grandiosidade.

Finalmente, chegamos a uma sala,minha mãe falou com a atendente e ela me entregou o uniforme. O tecido era de alta qualidade, e só de olhar eu já podia perceber que aquilo custava mais do que qualquer roupa que eu tivesse usado na vida.

-Você pode usar o provador ali.- disse a mulher em um inglês marcado por um forte sotaque italiano.

Entrei no pequeno provador e comecei a vestir a roupa. Primeiro a camisa branca de botões, depois a saia preta plissada e a gravata. O terno preto era um pouco pesado, mas vestia perfeitamente. Meias de cano alto completavam o visual. Quando finalmente me olhei no espelho, fiquei surpresa com a imagem que vi. Eu parecia uma pessoa completamente diferente.

O uniforme era muito mais formal do que o que eu estava acostumada no Brasil, onde usava apenas uma camiseta da escola e jeans. Aqui, eu parecia uma estudante saindo de um filme ou de uma revista de moda. Era tudo tão...diferente.

Minha mãe entrou no provador, observando-me com um sorriso orgulhoso. -Ficou lindo em você. E quanto aos sapatos, pode escolher o estilo que preferir. Desde que sejam pretos ou brancos, está tudo certo.

Assenti, ainda me sentindo um pouco desconectada da minha própria imagem. Era estranho como uma roupa podia transformar alguém tanto assim. Coloquei minhas roupas antigas de volta e deixei o uniforme dobrado com cuidado.

Depois de resolvermos todas as questões burocráticas com a escola, minha mãe sugeriu que fizéssemos um pequeno tour para conhecer melhor o campus. Caminhamos pelos pátios amplos e bem cuidados, e a cada novo prédio, eu me sentia mais intimidada. A biblioteca era enorme, com prateleiras que iam do chão ao teto, e as salas de aula pareciam mais salas de conferência de um hotel cinco estrelas.

Quando chegamos ao jardim central, pedi à minha mãe um momento para respirar. Precisava de um tempo sozinha para assimilar tudo aquilo. Ela concordou e foi conversar com a funcionária enquanto eu ficava ali, cercada pelas árvores altas e flores vibrantes.

Caminhei lentamente pelo jardim, absorvendo cada detalhe. O vento balançava as folhas, e o som dos pássaros cantando ao longe me trouxe uma sensação de paz que eu não sentia desde que chegamos à Itália. Mas essa paz foi quebrada por um ruído estranho vindo de um canto mais afastado, perto de um pequeno bosque de árvores.

Curiosa, segui o som até que parei ao ver algo que não deveria estar acontecendo em plena luz do dia, dentro da escola. Ali, entre as árvores, havia um casal. O rapaz era alto, com cabelos negros despenteados e uma expressão fria e séria. Ele segurava uma garota pela cintura enquanto a beijava intensamente. Era uma cena quase cinematográfica, mas o que me chamou a atenção foi o contraste entre a expressão fechada dele e o beijo.

Fiquei ali, congelada, sem saber o que fazer. Queria sair, mas meus pés pareciam presos ao chão. Foi então que, em um movimento desajeitado, pisei em uma folha seca. O som foi alto o suficiente para fazer o rapaz se virar na minha direção. Seus olhos me encontraram, e por um segundo, tudo pareceu parar. O olhar dele era penetrante, quase desafiador, e eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

Sem pensar duas vezes, dei meia-volta e saí dali o mais rápido que pude, o coração disparado. Não olhei para trás, mas podia sentir o olhar dele queimando em minhas costas enquanto eu corria de volta ao colégio, procurando desesperadamente por minha mãe.

Quando finalmente a encontrei, ela estava terminando a conversa com a funcionária. Tentei esconder o nervosismo, mas minha mãe percebeu algo de errado. -Está tudo bem?

-Sim, sim... só me perdi um pouco.- respondi rapidamente, tentando afastar o que havia acabado de acontecer.

Ela me olhou com um pouco de desconfiança, mas não insistiu. -Vamos para casa então. Você já teve um dia cheio.

Assenti, seguindo-a para o carro, mas não conseguia parar de pensar no que tinha visto. Quem era aquele rapaz? E por que me senti tão estranha ao vê-lo? Essas perguntas ecoavam na minha mente enquanto saíamos da escola e pegávamos a estrada de volta para casa. Sabia que ainda havia muito a descobrir sobre essa nova vida, e aquilo era só o começo.

Tra il Sole e il Mare (Sem Revisão)Onde histórias criam vida. Descubra agora