Amanda
O dia parecia estar cinza, refletindo exatamente como eu me sentia por dentro. Meus pensamentos ainda estavam presos ao encontro com o pai de Nicolo, e minha mente revivia, repetidamente, as palavras dele, como facas perfurando meu peito. Tudo parecia um peso que eu mal conseguia carregar. Cheguei na escola mais tarde do que o habitual, desejando evitar ao máximo qualquer interação desnecessária.
Os corredores já estavam cheios de alunos conversando, rindo, vivendo suas vidas, enquanto eu apenas queria passar despercebida. Caminhei em direção à minha sala, com o olhar fixo no chão, até que o vi. Nicolo. Ele estava vindo na minha direção, os passos firmes e o rosto fechado, carregado de uma mistura de determinação e raiva. Meu coração disparou contra minha vontade.
– Precisamos conversar! – Ele falou, mais como uma ordem do que um pedido.
Eu parei por um segundo, erguendo o olhar para ele. Aquele Nicolo que parecia tão intenso era o mesmo que havia me beijado desesperadamente na noite anterior, mas, ao mesmo tempo, era o mesmo que fazia parte de tudo o que eu queria evitar. A lembrança me atingiu como um soco, e decidi que não iria ceder.
– Não tenho nada para falar com você. – Minha voz saiu fria, tão distante quanto consegui fazer parecer. Continuei andando sem nem olhar para trás.
Mas Nicolo não era o tipo de pessoa que aceitava um “não” facilmente. Antes que eu pudesse me afastar, senti sua mão segurar meu antebraço com firmeza, mas sem machucar. Ele me puxou, me obrigando a parar.
– Me solta, Nicolo! – Falei, tentando me soltar, mas ele me puxou para dentro de uma sala vazia próxima. O som da porta sendo fechada ecoou no pequeno espaço, e eu me virei, irritada e cansada de tudo aquilo. – O que você pensa que está fazendo? Você acha que pode me arrastar pra qualquer lugar quando bem entender?
– Você não me deu escolha. Você me bloqueou, me ignorou e ainda teve a coragem de agir como se eu não existisse! – Ele retrucou, o tom de voz mais alto do que deveria ser. Seus olhos brilhavam com algo que eu não conseguia definir – era raiva, mágoa ou desespero? Talvez um pouco de tudo.
Eu cruzei os braços, tentando parecer mais forte do que me sentia naquele momento.
– E eu não tenho motivos para agir de outra forma. Nós dois sabemos que isso... nós dois... não vai funcionar. E não adianta você insistir.
Ele deu um passo em minha direção, e eu recuei instintivamente, como se a proximidade fosse perigosa demais.
– Você não entende. Eu não vou me casar com Valentina, eu não vou seguir o que meu pai quer, e eu nunca, jamais, faria de você algo menor do que você é. Você acha que eu não vejo como você está? Como isso está nos machucando? Você realmente acha que fugir de mim vai resolver tudo?
Suas palavras bateram fundo, e por um segundo, minha determinação vacilou. Mas eu me forcei a lembrar das ameaças, do que estava em jogo, do quanto eu já estava quebrada por causa de tudo aquilo.
– Você não entende. Não é só sobre nós dois. É sobre o que seu pai pode fazer, é sobre como ele controla tudo e todos ao seu redor. Ele já me avisou que, se eu não me afastar, vai prejudicar meu padrasto, e eu não vou deixar isso acontecer. Não posso.
Ele ficou em silêncio por um momento, processando minhas palavras. Seus punhos se fecharam ao lado do corpo, e eu pude ver a raiva crescer em seus olhos, mas ela não era direcionada a mim.
– Então é isso. Meu pai ameaçou você também. – Ele disse, mais para si mesmo do que para mim. – Eu sabia que ele era baixo, mas envolver outras pessoas dessa forma... Ele não vai parar, não é?
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Tra il Sole e il Mare (Sem Revisão)
RomanceAmanda, uma carioca de alma livre, vê sua vida virar de cabeça para baixo quando descobre que sua mãe vai se casar com seu padrasto italiano e a leva para uma nova vida na encantadora Florença. Longe do sol e das praias do Rio, ela precisa se adapta...
