Capítulo 18

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Acordei com a luz suave do sol invadindo o quarto, e por um breve momento, pensei que a noite passada tinha sido apenas um sonho maluco. O tipo de sonho que te deixa com o coração acelerado, mas que você tenta esquecer assim que se espreguiça. Mas, enquanto caminhava até o banheiro, uma sensação estranha começou a crescer no meu estômago.Eu estava nua.

Assim que me olhei no espelho, meu corpo congelou. Marcas. Marcas visíveis de chupões no meu pescoço. Meu coração disparou, e o pânico se instalou imediatamente. Como eu ia sair de casa com aquilo? Pior ainda, como eu ia esconder isso da minha mãe?

"Isso não pode estar acontecendo", pensei, tentando esfregar as marcas na esperança inútil de que fossem desaparecer. Não funcionou. Eu precisava dar um jeito, e rápido.

Sem perder tempo, corri para o guarda-roupa e vesti o uniforme. Usar maquiagem no pescoço nesse tempo,ia derreter.Não havia como me livrar das marcas, então decidi usar o único acessório que poderia me salvar: um cachecol vermelho. Amarrado bem apertado, cobrindo todo o pescoço, era a minha única esperança de não ser interrogada até a morte.

Quando desci para tomar café, encontrei minha mãe e Alessandro já sentados, conversando despreocupadamente. Eles pareciam tão alheios ao meu desespero interno que, por um segundo, achei que talvez conseguisse sair de casa sem levantar suspeitas.Jessica estava dormindo ainda.

— Você está bem, filha?— Minha mãe perguntou, assim que me viu entrar na cozinha. Seu olhar fixou-se diretamente no meu pescoço coberto, e eu já sabia que estava encrencada.

— Estou, só... só estou com frio.— Menti, tentando soar casual enquanto pegava uma xícara de café.

Alessandro olhou para mim com uma expressão confusa. — Frio? Mas o clima está ótimo hoje. Nem está frio para cachecol.

Antes que eu pudesse me justificar, minha mãe se levantou e começou a caminhar em minha direção, o olhar preocupado. — Deixa eu ver sua testa. Será que você está com febre?

Quando ela tentou tocar meu pescoço, eu instintivamente me afastei, desviando o corpo. — Não, mãe, estou bem! Só quis testar um novo look, sabe? Algo diferente.— Sorri nervosamente, tentando encerrar o assunto.

Ela arqueou uma sobrancelha, obviamente cética, mas não insistiu. — Hum, sei...— disse, voltando para a mesa. — Mas se estiver sentindo qualquer coisa, me avisa, tá bom? Não quero que vá para a escola doente.

Assenti rapidamente, sentindo o alívio tomar conta de mim. Alessandro ainda parecia desconfiado, mas felizmente não comentou mais nada. O cachecol havia funcionado, pelo menos por enquanto.

°°°
Quando cheguei à escola, algo dentro de mim estava diferente. Mesmo com o cachecol apertado no pescoço para esconder as marcas, me senti mais leve, mais animada, como se de alguma forma a tensão entre mim e Nicolo tivesse se dissipado. Nossa relação parecia ter mudado, mas o quê exatamente eu não sabia.

Caminhando pelo corredor em direção à sala, avistei Nicolo encostado nos armários, cercado por seus amigos, e com Valentina praticamente pendurada em seu pescoço. O sorriso que estava começando a se formar no meu rosto sumiu. Senti uma pontada no peito ao vê-los juntos, embora Nicolo não parecesse interessado no toque dela. Mesmo assim, não fazia nada para afastá-la.

Nossos olhares se cruzaram por um breve momento. Ele me viu, disso eu tinha certeza. Acenei levemente com a cabeça, esperando algum tipo de reconhecimento. Um sorriso, um olhar, qualquer coisa. Mas ele simplesmente desviou o olhar, me ignorando completamente.

Meu estômago revirou e senti meu coração arder de frustração e, talvez, de mágoa. "Por que ele está agindo assim?", pensei, apertando a alça da mochila com mais força. Valentina, pendurada nele como sempre, riu de algo que um dos amigos disse, e eu continuei parada ali, tentando entender o que estava acontecendo.

Mesmo ele não parecendo interessado nela, ele não a afastava. E, agora, ele me ignorava. Senti meu rosto esquentar e uma mistura de raiva e humilhação tomou conta de mim. Com o peito apertado, me forcei a seguir em frente, sem olhar para trás. Eu tinha que focar no que importava, mas, por dentro, o que eu mais queria era uma explicação para o comportamento dele.

Cheguei à sala de aula com a cabeça fervendo. "Esquece, Amanda. Esquece!".Me sentei e tentei me concentrar em qualquer coisa, mas minha mente ainda estava presa ao que tinha acontecido no corredor. Nicolo me ignorando, Valentina pendurada nele... uma confusão de sentimentos se agitava dentro de mim. Peguei meus livros e coloquei sobre a mesa, respirando fundo para me acalmar.

Chiara, que estava ao meu lado, percebeu algo errado.

— Tá tudo bem? — ela perguntou, baixinho, olhando para mim com preocupação.

Forcei um sorriso e acenei.

— Sim, tudo ótimo — menti, tentando soar convincente. Eu sabia que ela não acreditava, mas preferia não falar sobre isso agora.

Minutos depois, Valentina entrou na sala com uma de suas inseparáveis amigas. Elas riram juntas, conversando alto como sempre, mas dessa vez, ao passarem por mim, senti um arrepio percorrer meu corpo. Valentina me olhou diretamente e soltou uma risada debochada. Parecia que todo o ar na sala havia sumido por um instante.

Ela foi até o seu lugar, e quando se sentou, falou alto o suficiente para que todos ao redor ouvissem:

— Finalmente o Nicolo me chamou para o baile.

Sua voz carregava um tom de superioridade, como se tivesse ganhado algum tipo de prêmio.

Eu ouvi. Claro que ouvi. Meu estômago se apertou, e a raiva e a mágoa voltaram com força total. Não consegui evitar. A lembrança da noite passada, do toque de Nicolo, dos seus lábios nos meus,em mim, tudo veio à tona em uma onda avassaladora. De repente, senti-me suja, traída por mim mesma, por ter acreditado que algo entre nós havia mudado. Ele estava jogando comigo, e eu tinha caído direitinho.

Mordi o lábio, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam aparecer. Não ia dar a Valentina o prazer de me ver abalada, mas por dentro, eu estava em pedaços.

Mas recusei-me a chorar. Não por Nicolo, muito menos por qualquer homem. Não ia me deixar abalar por alguém que só parecia querer me confundir e machucar. Respirei fundo e tentei me concentrar em qualquer outra coisa, mas a sensação de ser observada me deixou tensa. Era como se o peso do olhar de Nicolo estivesse cravado em mim.

Eu sabia que ele havia entrado na sala, mas fiz questão de não olhar para ele. Mantive meus olhos fixos na minha mesa, ignorando completamente sua presença. Ele não merecia minha atenção, não depois do que aconteceu.

Logo, a professora entrou e começou a organizar os materiais para a aula. Aproveitei o momento para pegar meu estojo e tirar o caderno da mochila. Focar na aula seria a minha salvação hoje. Mantive minha cabeça baixa e comecei a anotar as primeiras palavras da professora no quadro, tentando, a todo custo, afastar ele da minha mente.

Tra il Sole e il Mare (Sem Revisão)Onde histórias criam vida. Descubra agora