Dúvidas

228 35 49
                                        

PAT

Tento me concentrar na carne que está fritando, mas não consigo tirar da cabeça o que aconteceu. Nunca imaginei... Quer dizer, claro que eu imaginei e muito, mas nunca imaginei que aconteceria tão cedo e dizer que foi incrível seria pouco. Já fiz isso muitas vezes nos últimos anos, pegar uma garota na boate ou no bar e levar para o banheiro, sempre casual e sem compromisso, apenas tesão, mas nem chega perto do que o Pran fez e ele só me deu uma mãozinha, imagine como vai ser o resto!

— MERDA!

A colher cai no chão quando eu solto ela e o som ecoa pela cozinha, olho para a minha mão que queimou quando encostei na lateral da panela e esta começando a ficar vermelha, isso aqui vai ficar feio.

— Deixa eu ver...

O Pran segura a minha mão parecendo ansioso, vira ela de um lado e do outro, então abre a torneira e coloca as nossas mãos embaixo da água.

— No que você estava pensando, Pat? Porque está tão distraído?

Ele não faz ideia!

— Eu... Está tudo bem, não é nada sério.

Eu desligo a torneira, mas ele liga de novo.

— Você tem que ficar aí.

Ele mantém as nossas mãos unidas embaixo da água, não posso deixar de sorrir, pelo jeito ele gosta de ser mandão.

— Eu estou bem mesmo professor, só me distrai um pouco.

O Pran continua olhando pra minha mão com uma mistura de preocupação e irritação, eu seguro o seu queixo com a mão livre fazendo ele olhar pra mim e me aproximo devagar observando os seus olhos que denunciam a surpresa e também a expectativa, o professor é muito mais controlado do que eu, mas o seu desejo com certeza é tão grande quanto.

O nosso beijo, apesar do desejo, é doce e suave, mas logo acaba com o professor soltando a minha mão e se afastando, eu quero ir até ele, mas vou acabar queimando a comida se continuar me distraindo assim, então apenas desligo a torneira e volto para o fogão.

— Você cozinha bem.

Olho para trás e sorrio antes de responder.

— Quando a... — Eu paro de falar por um momento, acho que não é uma boa ideia ficar falando da minha ex pra ele. — No início eu sempre ia na casa da minha mãe pra almoçar e jantar, mas quando o Dean começou a comer eu pedi pra ela me ensinar a cozinhar, é algo que eu tinha decidido na época, que eu vou fazer tudo pelo meu filho, ele só tem a mim, mas eu vou ser o suficiente pra ele nunca sentir falta...

Eu paro de falar mais uma vez, isso é muito complicado, nunca precisei evitar um assunto antes.

— Você é um bom pai, Pat!

— Eu tento...

— Eu garanto que é, já conheci muitos pais nos últimos anos, é difícil encontrar alguém que é tão devotado ao filho, eu posso ver como você se preocupa e faz de tudo pra que ele seja feliz.

Isso é verdade, mas ouvir o professor falando assim me deixa com vergonha, então eu aceno sorrindo e pego outra colher.

Ficamos em silêncio enquanto continuo cozinhando, quando não tem mais o que fazer, apenas esperar a comida ficar pronta, eu lavo as mãos e vou até a mesa onde o professor está sentado, seguro a sua mão e o ajudo a levantar. O Pran me segue até a sala sem questionar, quando sentamos no sofá percebo que ele está meio rígido como se esperasse eu fazer algo, será que é isso que ele pensa? Que eu sempre tenho segundas intenções?

— Obrigado por ter me ajudado com o problema do Dean, professor... Obrigado por proteger ele!

— Como ele está?

— Esta bem, ele se preocupa demais com as coisas erradas, então não está pensando no que as crianças fizeram.

— Coisas erradas?

Eu sorrio e concordo.

— Você e eu.

O professor balança a cabeça sorrindo como se soubesse exatamente do que estou falando, não posso negar que eu também me preocupo com o Pran e como tudo isso pode prejudica-lo.

— Como estão as coisas na escola, professor, aquelas chatas pararam de incomodar por você ser homem e tudo mais?

Apesar da surpresa o Pran relaxa e vira na minha direção.

— As coisas estão melhores agora, elas não estão felizes, mas graças ao apoio da direção, elas entenderam que não vão conseguir mudar isso.

— Elas ainda falam aquelas coisas pra você?

A sua expressão suaviza quando ele sorri e entrelaça os nossos dedos me obrigando a usar todo o meu auto controle para continuar prestando atenção nele e não nas nossas mãos.

— Ninguém fala nada diretamente pra mim.

Eu entendo o que ele quer dizer, hoje em dia ninguém fala nada diretamente pra mim também, não impede que falem pelas costas ou alto o suficiente pra que eu possa ouvir.

— Eu sinto muito, professor!

— Não precisa se preocupar, é apenas uma questão de adaptação, minha e deles. Eu sabia que não seria fácil quando voltei para a Tailândia.

Dessa vez ele olha para as nossas mãos perdido nos próprios pensamentos.

— Você ainda quer voltar, professor? — Ele me olha confuso e eu respiro fundo antes de perguntar novamente. — Você ainda quer voltar para os Estados Unidos?

Nos encaramos em silêncio enquanto o meu coração bate cada vez mais acelerado, isso começa a me preocupar, nunca tentei investir em uma relação antes, e se eu estiver me jogando nessa de cabeça para no fim acabar perdendo ele? O meu coração tropeça uma batida fazendo o meu peito doer. Quando a tensão fica grande demais eu tento pensar em algo pra mudar de assunto, mas ele interrompe os meus pensamentos.

— Pat... Eu...

Consigo ver aquela batalha interna que já estou me acostumando, é como se o Pran estivesse brigando com o professor para responder a pergunta, tento imaginar o que cada um diria, mas a verdade é que tudo depende de qual é a sua dúvida dele.

— Papai?

O Pran se assusta apertando a minha mão, eu viro para a porta do quarto agora aberta vendo o Dean esfregando os olhos ainda com sono, ele pisca algumas vezes, de repende olha pra o lado e dá o sorriso mais lindo do mundo.

— Titi!

Volto para o professor que agora observa o Dean correndo até nós, quando olha pra mim ele aperta a minha mão mais uma vez e diz com uma voz suave.

— Não, Pat, eu não quero voltar.


DaddyOnde histórias criam vida. Descubra agora