Amanhã

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PRAN

A música acaba com uma doce melodia e a próxima da playlist começa, fico ouvindo cada palavra como se fosse feita pra mim.

Tem alguma coisa em você
É como um vício, faça o que quiser comigo, querida.
Não tenho motivos para duvidar de você
Porque certas coisas magoam e você é minha única virtude
E sou praticamente seu

E você continua voltando, voltando de novo
Continua dando voltas, dando voltas, dando voltas na minha cabeça

E há certas coisas que eu adoro
E há certas coisas que eu ignoro
Mas tenho certeza que sou seu
Certeza que sou seu
Certeza que sou seu¹

Essa última frase fica se repetindo na minha mente como se me instigasse a acreditar em algo que tenho tentado evitar, claro que não tenho certeza de nada, mas sei que não podemos continuar como estamos.

Passo a mão pelo cabelo e viro para o lado, o despertador pisca o horário repetidamente acusando a minha covardia.

23:58

Quase meia noite, o Pat deve estar saindo do trabalho, se já não saiu. Será que ele ficou me esperando? Não devia ter dito nada ontem, aquele "Amanhã" devia ter ficado guardado, mas foi mais forte que eu, senti que precisava dar um passo na sua direção ao ver ele recuar. Sei que é errado, já considerei muitas vezes tudo isso, listei todos os motivos para evita-lo, mas o Pat continua voltando e não parece que vai desistir.

No início parecia uma brincadeira, algo impulsivo, apenas curiosidade, mas agora já não sei mais, acho que ele não está confuso sobre o que quer e isso me deixa confuso.

Um leve apito chama a minha atenção para o relógio que agora mostra os números 00:00, sempre gostei desse horário, ele marca o fim e o começo, não importa quão bom ou ruim o dia esteja, ele vai ter um fim e um novo dia sempre estará a nossa espera.

Uma nova música começa me trazendo mais uma vez para o meu drama pessoal.

Estou afundando e desta vez
Temo que não haja ninguém pra me salvar
Esse tudo ou nada realmente deu um jeito
De me deixar louco

Eu preciso de alguém para curar, alguém para conhecer
Alguém para ter, alguém para segurar
É fácil dizer, mas nunca é o mesmo
Acho que eu meio que gostava
Do jeito que você entorpecia toda a dor

Agora o dia sangra no anoitecer
E você não está aqui
Pra me ajudar a passar por tudo isso
Eu abaixei minha guarda
E então você puxou o tapete
Eu estava meio que me acostumando
A ser alguém que você amava²

Os números piscam sem parar como um sinal de alerta, o tempo está passando, um dia se foi e o outro começou, quanto tempo mais vou conseguir evitar ele e a mim mesmo?

Puxo a tomada do despertador desligando ele e fecho os olhos, mas o refrão da música continua a me assombrar.

Eu preciso de alguém para curar, alguém para conhecer
Alguém para ter, alguém para segurar
É fácil dizer, mas nunca é o mesmo
Acho que eu meio que gostava
Do jeito que você entorpecia toda a dor.

É estranho como isso define perfeitamente a minha situação, eu estou aqui em uma cidade desconhecida, sem ninguém ao meu lado, estou cansado de lutar sozinho, cansado de me esconder. Então tem o Pat, alguém que me atrai, que quer estar comigo, alguém que consegue me distanciar de tudo me permitindo ser eu mesmo, alguém que eu quero tanto...

Alguém que eu quero tanto...

Pego o meu celular e penso em ligar pra ele, mas isso não é o suficiente, hoje, nesse novo dia eu vou atrás do que quero.

Levanto colocando uma blusa e subo a escada, quando abro a porta dou de cara com o meu tio.

- Vai sair, Pran?

- Eu vou dar uma volta, estou sem sono, não precisa me esperar.

Ele caminha mancando para o seu quarto acenando pra mim, eu não perco mais tempo e saio para fora.

Penso em ir até o bar, mas acabo indo já outra direção, chego na frente da sua casa e não tenho certeza do que fazer, confiro o horário mais uma vez e me arrisco apertando a campainha.

- Professor?

Para a minha surpresa a voz surge atrás de mim, viro encontrando ele tão surpreso quanto eu. Só que ao contrário de mim ele sabe exatamente o que fazer, sem me dar chance para pensar ou reagir ele vem até mim com três passos largos, segura o meu rosto com as duas mãos e me beija. Quando se afasta segura a minha mão, abre o portão e me leva para dentro.

Entramos na sala que já está se tornando uma velha conhecida, com brinquedos espalhados e aquela planta quase morta, me sinto estranho estando tão confortável aqui. Ouço o barulho das chaves quando ele coloca em um balcão e olho pra ele, o Pat se aproxima devagar parando na minha frente, toca o meu rosto com a mão direita e fica olhando nos meus olhos, queria saber o que ele está pensando.

- Você está bem, professor?

Eu respiro fundo e aceno, ele continua olhando nos meus olhos como se estivesse procurando por algo neles, quando percebo ele está se aproximando devagar.

Já perdi a conta de quantas vezes nos beijamos, mas dessa vez parece ser diferente, talvez seja porque eu cansei de lutar ou porque aceitei que quero isso, não sei o que é, mas pela primeira vez isso é... Perfeito.

Quando se afasta o seu polegar fica deslizando pelo meu rosto lentamente, aquele seu sorriso totalmente errado agora parece tão certo, como se pertencesse a mim e a esse momento.

- Você tem certeza de que quer fazer isso, Pat?

Consigo ver a dúvida no seu olhar quando ele vacila para responder, o seu sorriso desaparece enquanto ele procura uma resposta para a minha pergunta.

- Se eu disser que tenho certeza de alguma coisa estarei mentindo e eu não quero mentir pra você, professor, mas eu quero tentar descobrir o que estou sentindo. Não me entenda mal, eu não estou confuso, é só que... Eu não faço isso há muito tempo, então não sei como vai ser, mas eu quero tentar, com você, eu quero tentar!

Sei que ele está sendo sincero e fico feliz por isso.

- Então vamos tentar, Pat, vamos descobrir juntos o que estamos sentindo.

A sua expressão séria se desfaz em um lindo sorriso e ele me beija mais uma vez, não sei no que isso vai dar, mas nesse momento o seu beijo é tudo o que eu preciso.

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Notas:
¹Certain Things (feat. Chasing Grace) de James Arthur
²Someone You Loved de Lewis Capaldi

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