Brincadeira de criança

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PRAN

As crianças vão uma por vez até a caixa em que coloquei vários desenhos, estou cantando uma música infantil de animais, sempre que imito os sons elas riem sem parar, depois escolhem uma placa colocando na minha frente, comemoram quando eu aceno confirmando que é o animal certo e repentem a estrofe da música comigo.

Estou imitando um elefante quando alguém bate na porta e abre ela, uma professora auxiliar de outra turma sorri e espera, eu paro de cantar, encosto o violão na parede e vou até ela.

— Bom dia, professor, a diretora pediu para você ir até a sala dela.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não sei.

— Tudo bem, eu já volto.

Saio da sala deixando as crianças com ela e tento imaginar o que aconteceu, por um momento o receio de terem descoberto sobre o Pat me aflige, mas descarto a possibilidade,  mesmo que seja o caso já decidi que quando acontecer eu não vou vacilar, vou ficar ao seu lado e protegê-lo.

Chego na diretoria arrumando a camisa dentro da calça, bato na porta e espero, quando a diretora aparece percebo que algo sério está acontecendo, ela está visivelmente nervosa.

— Entre, professor Pran.

Ela vai até a mesa deixando a porta aberta e algumas pessoas na sala me encaram, é compreensível o estado da diretora se essa hostilidade estava sendo direcionada a ela.

— Bom dia!

Ninguém responde, então eu entro fechando a porta, não sei bem o que fazer, pois todos estão em pé, mas caminho até a mesa e sento em uma das cadeiras livres. A diretora não esconde o desconforto ao apontar pra mim.

— Senhores, este é o professor que estava presente na situação envolvendo os seus filhos.

Todos começam a falar ao mesmo tempo e tenho dificuldade para acompanhar, quando percebo do que se trata começo a me irritar. Depois de um tempo a diretora tenta acalmar os pais.

— Senhores... Senhores... Eu entendo, mas existem situações que a escola precisa intervir e até aplicar punições se for necessário.

Com um passo a frente um homem de terno se aproxima falando mais alto do que o necessário.

— Vocês me tiraram do meu trabalho pra falar sobre brincadeiras de crianças?

— Brincadeiras?

— Professor Pran...

Eu ignoro a diretora e levanto ficando de frente para os pais que estão em pé atrás de mim.

— Uma criança que não tem nem seis anos está sendo intimidada por alunos de dez anos ou mais, essa criança poderia ter se ferido se eu não tivesse chegado a tempo, os seus filhos não estavam brincando, estavam cometendo um crime!

O choque deixa todos em silêncio por um momento, então a sala é tomada por gritos histéricos, em meio a confusão ouço as batidas irritantes de salto que denunciam a ansiedade crescente da diretora.

— Senhores, se acalmem...

Se esse é o jeito dela resolver conflitos, não me surpreende que os pais se achem no direito de atacar.

— Quem é a criança? Tragam ele aqui e perguntem o que realmente aconteceu!

O homem de terno fala acima da voz de todos olhando na direção da diretora, mas eu respondo.

— Você quer trazer uma criança aqui para o intimidar como o seu filho fez?

— Intimidar? O que eu quero...

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