"𝐬𝐚𝐲 𝐢'𝐥𝐥 𝐛𝐞 𝐡𝐞𝐫𝐞, 𝐢'𝐥𝐥 𝐛𝐞 𝐡𝐞𝐫𝐞"
Onde Elizabeth Stagg tem um histórico de relacionamentos tão ruins quanto sua reputação.
Ou
Onde Vance Hopper não entende os sentimentos que surgiam em relação a colega de classe.
...
capítulo curto apenas por desencargo de consciência... recentemente fiz 18 e agora tenho algumas outras prioridades além de All I Want, mas não tenho a intenção de abandonar vocês tão cedo.
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QUINTA-FEIRA, 1978
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-Eu não sei porquê eu fiz aquilo. E-Eu... Não estava no juízo certo. Eu tava bêbada, mas eu lembro de tudo de forma tão vívida...
-Voce se arrepende?- Eu suspiro com as palavras da mais velha.
-Não, mas eu gostaria... Gostaria muito.
Já se passou dois dias desde que eu ferrei com tudo, dois dias desde que eu beijei aquele idiota do Pinball Vance, dois dias que eu não coloco minha cara na escola, já que tenho medo que ele tenha espalhado o que eu fiz. Eu nem pensei muito depois que o beijei. Foi como ir do céu ao inferno em questão de segundos. Ele disse para eu nunca mais fazer aquilo, então eu apenas saí pela porta dos fundos, sem falar com ninguém e seguindo em direção à casa da Sophia de imediato.
-Foi como tirar um peso dos ombros?- A Senhora Yamada fala em um tom reconfortante, me observando atentamente. É a minha primeira sessão com ela sendo minha psicóloga.
-Sim, mas... Eu me sinto burra.- Eu respiro fundo, sentindo o bolo de choro se formar na minha garganta. Que situação de merda ein, Elizabeth?- E eu roubei o beijo dele, isso faz eu me sentir péssima.
-Você quer um copo d'água, Elizabeth?- A mais velha me pergunta. Eu nego com a cabeça.- Eu não acho que seja tão grave quanto a sua cabeça faz parecer. Como você disse, você estava bêbada. Eu realmente gostaria que você falasse com o Vance Hopper sobre esse acontecimento para que você saiba como ele se sentiu e possam resolver isso...- Eu arregalo os olhos.- Mas acho que essa é a opção que você menos quer, não é?
-Definitivamente.
-Entendo.- Ela acena com a cabeça, escrevendo algo no bloco de notas.- Mas não é bom ficar remoendo isso, Elizabeth. Vocês são colegas de classe, e estão fazendo um trabalho juntos, em algum momento vão ter que interagir de novo.
-Eu sei, mas... Eu posso sair da aula.
-E continuar fugindo dos seus problemas? Se for assim, você também vai ter que parar de sair na rua.
-Eu poderia viver bem com isso.- Murmurro.
-Não, você não poderia, Elizabeth.- A senhora Yamada é direta, me deixando desconcertada e com a boca seca, sem respostas.- Acho que você deveria vir aqui ao menos duas vezes na semana... Talvez nossas conversas se tornem uma nova forma de você desabafar e descarregar esses sentimentos, ao invés de recorrer a automutilação. Você tem feito eles com frequência?
-Não... Bem, foi semana passada, mas eu não fiz de novo.- Eu engulo em seco, desviando o olhar pras minhas coxas.- Mas... eu sinto minha pele coçar e esquentar na área do braço. É como se chamasse por mim... Será que eu tô ficando esquizofrênica?- A senhora Cyntia Yamada me olha como se tentasse disfarçar a pena que sente de mim, ou talvez seja só coisa da minha cabeça paranóica.
-Você não é esquizofrênica, Effy. Você tem transtorno de personalidade borderline.- Seu olhar fica mais sério enquanto eu mordo meus lábios. Borderline é meu ovo.- É o diagnóstico que seu antigo psiquiatra deu. Caracterizado por mudanças súbitas de humor, medo de abandono, impulsividade... relacionamentos intensos. Você tomava remédios, não é? Estabilizadores de humor-
-Eu não acho que eu tenha nada disso.- Murmurro.- A única coisa que penso sobre mim é que eu sou uma puta atormentada por toda merda que já fiz na vida.- Ela suspira, tirando os óculos de graus do rosto enquanto massageia as suas têmporas.
-Essa é sua opinião de si mesma, ou o que sua mãe sempre diz pra você, Elizabeth?- Meus olhos se arregalam com suas palavras e engulo em seco, minha mão viajando até minha coxa, arranhando a calça jeans. Doente. Senhora Yamada suspira, colocando os óculos de volta.
-Não...- Eu respondo com a voz fraca, negando com a cabeça.- Eu sei o que eu sou...- Tento ter certeza, mas não tenho. Eu não faço ideia. Que grande piada. Doente. Puta desgraçada.- E sabe o que é mais engraçado nisso tudo? Eu sou tão desgraçada que ninguém nunca irá gostar de alguém como eu na vida, não com minha cabeça, não com todos essas cicatrizes no corpo. Eu sou horrenda.
O silêncio invade o escritório, sendo audível apenas os sons fracos de nossas respirações. Eu mal consigo olhar para a mais velha, simplesmente não consigo, é sufocante pra caralho. Será que eu realmente sou isso? Será que realmente sou horrenda ou o que eu penso é apenas o que minha mãe diz sobre mim? Talvez eu esteja me tornando um reflexo nojento de tudo isso. Chega a ser hilário pra caralho.
-Sinceramente, você é muitas coisas, mas horrenda você não é, Elizabeth.- Ela fala com suspiro escasso. O olhar da mais velha vai para o relógio de pulso, olhando quanto tempo já havia passado desde o início da sessão.- Já deu uma hora... Mas eu realmente não queria deixar você sair daqui com esse pensamento.
-Eu posso fingir.- Falo sem pensar.
-Fingir?
-É. Fingir.
-Você não pode fingir seus sentimentos, Effy. Sabe porquê? Porque no fundo você vai continuar sentindo esse vazio que você tanto fala e só vai fazer você odiar a sí mesma ainda mais. E você tem 17 anos. Não é pra uma garota bonita, jovem e criativa que nem você acabar num cemitério nessa idade.- Eu engulo em seco, ficando em silêncio.- Nos vemos na semana seguinte?- Respiro fundo, engolindo o choro na minha garganta.