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 SEGUNDA FEIRA, 1978

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SEGUNDA FEIRA, 1978

Eu observo o teto do meu quarto da mesma forma que fiquei observando a algumas horas desde que acordei por volta de umas 5 da manhã. Acho que foi um sonho ruim ou algo do tipo. Não me lembro com exatidão mas tenho a certeza de que não foi algo muito agradável, talvez seja por isso que meu cérebro o excluiu de minha memória. De qualquer forma, eu nem quero dar tanta importância assim pra isso, por mais que ainda exista aquela pequena sensação irritante de algo que não foi mastigado completamente e ficou preso em seus dentes. Incômodo. Isso junto ao fato de eu me sentir completamente entediada, com vontade de sumir, e sem nenhuma vontade de ter que encarar aquela merda de colégio de novo. Só sentimentos bons. As cólicas em meu útero me fazem se encolher na cama, mordendo os lábios enquanto seguro os lençóis recém lavados com força, os jogando sobre mej rosto frustrado. O grito já estava preparado na minha garganta, apenas esperando o momento em que irei abrir a boca e soltar o som alto e quebradiço, mas eu também tenho certeza que minha querida mamãe ou Michael, que já voltou de sua pequena viagem, vão se estressar com minha onda de estresse de manhã e vão vir gritar comigo, ou pior. Não é um pensamento dramático, porra, eu não ousaria denomina-lo assim. Com Michael e Melanie sempre dá pra piorar o nível das coisas. Filhos da puta. De forma impulsiva e completamente repentina, meus dentes superiores, amarelados e desgastado pelos cigarros e pelo piercing na língua, agarram meu lábio inferior, se fincando na carne com força, fazendo meu piercing do lábio doer um pouco com esse gesto. O gosto de sangue envolve minha língua. O meu rosto se contorce em uma expressão de nojo, e rapidamente paro de morder os lábios, colocando a mão sobre a boca para de alguma forma impedir esse gosto metálico de entrar em minha boca de novo. Agora me sinto idiota. É meio engraçado como em menos de 3 minutos eu já senti tanta coisa. Meio bizarro. As vezes me pergunto se apenas eu sou assim ou se é uma problema geral entre as outras garotas. Não sou muito de interagir com outras garotas de forma mais complexa, como ter uma conversa ou algo do tipo, Sophia é a unica. Será que garotos também sentem isso? Cacete, se eu continuar com todo esse turbilhão de pensamentos eu vou acabar surtando às 7 da amanhã.

O despertador no criado mudo ao lado da cama toca, me fazendo tampar os ouvidos de imediato e grunhir baixinho de irritação. Não demorou muito em rapidamente dar um jeito de desligar esse troço, já tomando isso como uma iniciativa para levantar da cama e tentar viver mais um dia em minha vida. Cambaleio para fora da cama, passando pelo o que havia sobrado do meu espelho e vendo um pouco da minha aparência ao acordar. Cabelo desgrenhado, pele oleosa, olheiras... Talvez eu deva começar a usar aqueles rolinhos no cabelo antes de dormir. Acho que pode ser interessante a experiência de acordar não estando completamente destruída, mas de alguma forma isso me assusta um pouco, como se esse simples gesto fizesse eu me distanciar de mim mesma. Um suspiro baixo escapa dos meus lábios e eu desvio o olhar dos pequenos pedaços do espelho quebrado que ainda estavam ali. Tentador de certa forma mas eu sei que se minha psicóloga souber disso de alguma forma ela irá relatar isso pro meu pai. Ele não é a melhor pessoa do mundo mas ele não precisa de mais essa preocupação... Acho que ele deve ter coisas mais importantes pra dar atenção, mas, se bem que eu nem ao menos sei o que poderia ser essas coisas.

ALL I WANT | VANCE HOPPERHistórias para pegar e não largar. Descubra agora