"𝐬𝐚𝐲 𝐢'𝐥𝐥 𝐛𝐞 𝐡𝐞𝐫𝐞, 𝐢'𝐥𝐥 𝐛𝐞 𝐡𝐞𝐫𝐞"
Onde Elizabeth Stagg tem um histórico de relacionamentos tão ruins quanto sua reputação.
Ou
Onde Vance Hopper não entende os sentimentos que surgiam em relação a colega de classe.
...
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TERÇA-FEIRA, 1977
—Então... você gostou...?— A voz do loiro atrás de mim de forma não tão segura quanto a que ele demonstrou minutos atrás quando a gente tava... Bem, como eu posso dizer de forma mais delicada... trepamos. Continuo a vestir minha camiseta. Pra alguém que fez pela primeira vez, até que Vance foi bem.— Porra Stagg, fala alguma coisa!— Me viro para encara-lo, agora com minha camiseta vestida.
—Sim, eu gostei.— Sorrio de canto de boca, encarando o rosto vermelho e cabelo bagunçado de tanto que eu agarrei.— É só que dói um pouco pra falar depois que você mordeu meus lábios, idiota.— Vance sorriu de forma orgulhosa, notando meus lábios bastante avermelhados.
—Foi mal.— O loiro se aproxima de mim, deitando o rosto nas minhas costas, acariciando minha cintura com suas mãos.— Mas, ei... Vermelho fica bem em você.
—Fica?
—É, mas...— Vance acariciando meu lábios inferior com o polegar, se aproximando do pé do meu ouvido.— Eu acho que eu fico melhor com você.
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O silêncio que se instala depois das palavras de Vance é quase confortável. Ele ainda tem o rosto colado nas minhas costas, o calor do corpo dele me mantendo presa ali, no instante. O mundo parece distante — só existe o som da respiração dele, o cheiro do meu cigarro, que ele brigou comigo por acender, e suor.
Mas então o relógio na parede marca 18h47. E uma pontada de incômodo me atravessa.
Griffin.
Eu devia ter voltado da escola com ele, porra. Merda, merda...
Eu esqueci.
—Merda… — murmuro, empurrando Vance de leve, pegando minha calça jeans jogada sobre o chão.
—O quê?
—Meu irmão. Hoje ele saía mais tarde, e eu esqueci de buscar ele.— O loiro franze o cenho, meio impaciente, meio confuso.
—Ele deve estar com algum amigo da escola Effy. Ele não é nenhum bebê.
—Não sem me avisar.— Digo isso mais pra mim do que pra ele, mas já estou calçando o tênis, o coração acelerando sem motivo aparente.— E ele não é um bebê, mas é uma criança. Eu... Eu preciso ir.— Digo me levantando, já vestida com as calças. Vance também se levanta, como se me impedisse de fazer alguma loucura.
—Eu te levo em casa. Não vou deixar você andar sozinha de noite, porra.
—Vance...— Eu o abraço com as mãos trêmulas, a voz tremula. O loiro suspira, não perdendo tem em me abraçar também. É estranho ver essa nova face dele... mas é bom. Posso me acostumar.
—Vai ficar tudo bem, Ellie. O Griffin deve ta bem, ok? Ele deve estar em casa assistindo aquele desenho idiota que ele gosta.— Vance suspira, nao perdendo tempo em me puxar pela cintura em direção a porta da sala.
A noite já estava ali. O céu escuro, opaco, com poucos estrelas, me deixando mais nervosa por algum motivo. Não demora muito e a familiar falta de ar, aperto no peito e sensação de algo estranho se faz presente em mim, quase dificultando meu andar, mas tento me manter firme por conta de Griffin.
O caminhar até minha casa foi repleta de um silêncio pesado e respiração descompassada enquanto o ar frio da noite nos envolvia, fazendo o nariz ficar vermelho e gelado.
Quando abro a porta de casa, o ar frio, como um local abandonado, nos cerca. A casa está escura, o vento entrando pelas frestas, fazendo as cortinas dançarem. Eu chamo o nome dele uma vez. Duas.
Nada.
Chamo o de minha mãe.
Nada.
A risada sarcástica que Vance sempre carrega se apaga do rosto. Ele caminha pela sala, procurando um bilhete ou qualquer coisa, o som das botas dele ecoando no chão de madeira.
—Elizabeth?— A voz de minha mãe se faz presente no topo da escada... Michael atrás dela com um olhar ríspido focado em Vance.— Seu irmão tá com você?— Meu coração apertar e a minha respiração fica presa em minha garganta.
—E-Eu... achei que ele tinha vindo pra casa sozinho depois da escola.— Confesso com a voz baixa e pesada. O rosto de minha mãe fica embranquecido.
—O que?
—É claro.— Michael dá um riso sarcástico, cheio de veneno assim como ele.— Claro que você faria isso, Effy, deixar seu irmão mais novo sozinho só pra sair por aí dando pra qualquer moleque.
O silêncio pesa. Do lado de fora, só o som distante de um trem passando. Um apito longo, triste.
—Fala dela assim de novo, seu merda.— Vance diz após o choque passar, seu rosto vermelho de raiva e os punhos cerrados.
—Eu falo quantas vezes eu quiser, seu moleque. Essa aqui é a minha casa!
—Quem... Quem é esse garoto?— Melanie pergunta, quase como se estivesse perdida, o rosto pálido e os lábios embraquecidos denunciaram imediatamente algo errado com ela.
—Esse... É o Vance Hopper, mãe.
—Você...— As lágrimas brotam nos olhos dela.— Você deixou seu irmão sozinho por causa de um garoto, Elizabeth?! Meu Deus... Eu não posso acreditar o quão irresponsável você foi.
—Mãe...
—Não foi culpa dela, porra. Não fala assim com ela.— Vance diz com a voz firme, segurando meu braço com certa força, quase como se estivesse na defensiva. Michael começa a descer os degraus em nossa direção, mas Vance não recua, apenas me coloca atrás dele.
—Como é, seu merdinha?— Michael ri mais uma vez com veneno em sua voz.— Cai fora da porra da minha casa agora, vocês dois!
—Michael, querido, para.
—Não! Por causa dessa puta de merda e do namoradinho imbecil dela o meu afilhado sumiu!— O mais velho grita para minha mãe, fazendo nós duas nos escolhermos com sua voz.— Você sabe muito bem, Melanie, sobre essa van preta rondando a cidade!
Van preta...?
Ah não.
Vance não foi pra cima de Mcihael, o que me surpreendeu, apenas se manteve ali enquanto me afastava da situação. Eles estava sendo racional pela primeira vez.
— Mãe...— interrompo, num sussurro quase desesperado. — Me desculpa...
O vento para por um segundo. O mundo parece suspenso. E então, um som distante corta o ar — algo metálico, arrastado, vindo da direção da linha do trem.
Meu corpo inteiro gela com uma memória sombria.
Aquele trem que passa pela cidade ao sul, o mesmo trem em que eu tentei me matar ao mesmo que nasci novamente ao não ser atingida, porém ainda pior do que estava antes.
—Meu Deus do céu, só tem brigas nessa casa, ein filho?— Uma voz masculina família diz do lado de fora, procurando pela chave nos vasos de planta. Um suspiro de uma voz mais infantil é ouvido também.