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(Atenção!! Esse capítulo pode conter gatilhos para algumas pessoas!! Contém pensamentos sobre tirar a própria vida, sinais de depressão e problemas com pai e raiva, caso se sinta desconfortável, sugiro pular o capítulo, explicarei tudo nas notas finais)

FLASHBACKS

FLORA MARTINS ORTIZ

7 anos atrás, aos 10 anos de idade.

— Você vai me falar o que aconteceu? — mamãe me pergunta calmamente no carro, depois de me pegar na escola — Florinha, você tirou 2 em matemática, aconteceu algo.

Abaixo minha cabeça, com vergonha demais para olhar para ela.

— Eu não sei — respondo apenas. A ouço suspirar.

— Você tirou suas dúvidas com o professor? — perguntou de novo e sinto mais vergonha ainda quando nego com a cabeça — Flora! Você tem que tirar, ele tá ali para isso! Estamos pagando uma escola super cara para você ter um bom futuro.

Não, mãe. O papai está pagando a escola cara. O papai que quer que eu faça uma faculdade só porque ele não teve a chance. Você só quer que eu seja feliz fazendo o que eu gosto, mas você não quer contrariar ele, porque sabe como ele reage a isso.

Isso, bem, é o que eu pensei e gostaria (muito) de ter falado. Mas eu não consigo. Nunca consigo. Nunca me escutam.

— Desculpa — falo o de sempre.

— Se prepara aí, seu pai vai ficar sabendo dessa nota, você já sabe, né — falou quando viramos na rua da nossa casa em Medelín, na Colômbia.

Cada tempo que levou até o portão abrir, minha mãe estacionar na garagem e descermos do carro, foi uma tortura.

Eu sabia exatamente o que ele falaria. Toda vez era a mesma coisa. E toda vez eu tinha a mesma reação.

— Como foi na prova, Flora? — perguntou sério, do seu lugar no sofá enquanto passava seu programa de TV da noite.

Congelei no lugar. Eu me tremia de medo.

Ouvi mamãe suspirar mais uma vez e colocar suas mãos nos meus ombros encolhidos.

— Ela tirou dois — respondeu rápido como tirar o band-aid de uma ferida.

A única diferença era que doeria de qualquer jeito.

A expressão do meu pai foi de séria para brava em instantes. E eu tive vontade de morrer.

— Puta que pariu, Flora! — socou o braço do sofá e senti meu nariz e olhos arderem.

Eu chorava igual uma covarde. Toda santa vez.

Sim, eu merecia uma repreensão pela nota baixa e por, supostamente, desvalorizar o esforço que ele fazia para pagar a escola que eu não queria estudar. Mas, do jeito que ele fazia a "repreensão", me fazia repensar se eu era merecedora de todo esse ódio.

— Rafael, por favor — mamãe pediu entrando na minha frente quando ele se sentou na beirada do sofá — ela é só uma criança.

— Uma criança burra! — gritou ele novamente e apontou um dedo furioso para mim — como que vai ser alguém na vida se não sabe fazer a porcaria de uma conta de matemática, porra?

Nesse momento as lágrimas começaram a cair. E não pararam mais. Toda vez era isso. E toda vez eu me sentia um lixo, uma inútil. Talvez eu fosse mesmo.

Eu não tinha estudado direito porque papai e mamãe brigaram todas as noites que eu deveria estar concentrada na prova. Não conseguia prestar atenção em mais nada se não a briga deles, tinha medo de papai machucar minha mamãe.

¡PERFECT! Hector FortHistórias para pegar e não largar. Descubra agora