47'- pushing down on me

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🎵 it's the terror of knowing
what this world is about

boa leitura!

◾️Christopher◾️

Cada pequena partícula de poeira daquele quarto de hotel está sendo analisada pela minha equipe. Por sorte, as camareiras fizeram o favor de varrer um pouco dela para debaixo do tapete, então conseguimos achar grãos de areia deixados pelos sapatos de alguém que não era a Dulce, porque esse resíduo vinha de outro lugar que não era a Flórida.

E quando a minha equipe descobriu que eram resíduos comuns do solo da Califórnia, eu soube exatamente quem fez isso. Ao chegar a essa conclusão, tudo o que eu enxerguei era vermelho. Vermelho como o sangue que eu faria jorrar do pescoço daquele desgraçado.

Achei que tinha deixado claro anos atrás que Dulce era minha. Achei que o tivesse destruído o bastante para que não sentisse nenhuma motivação de ir atrás da minha mulher.

Seria melhor para ele se seguisse as minhas expectativas. Mas ok, pessoas burras fazem escolhas estúpidas na maior parte da vida. Ele vai pagar caro por isso.

[•••]

◾️Dulce◾️

A semana passou como uma vaca gorda tentando se arrastar por uma estrada deserta debaixo de um sol escaldante numa tarde de verão. Cada dia nessa casa se resumiu ao relógio e o calendário disputando para ver quem conseguia me fazer cortar os meus pulsos primeiro.

Estou sentada na beirada da cama em mais uma dessas noites. E como em todas as outras, alguém está mexendo na maçaneta da minha porta. Agora eu sei exatamente quem é. Estou testemunhando cada vez mais a deterioração da mente do meu pai. Ele nunca foi uma pessoa muito legal, mas nunca esteve tão doente como agora.

De manhã, durante o café, ele me chamou de Blanca duas vezes. E em alguns momentos eu o pego me encarando quando resolvo sair para espairecer. Depois que percebi que ele me procura pelos cômodos, decidi me limitar ao meu quarto e mantenho a porta trancada desde então.

E eu poderia estar com pena e tentar entender seus problemas, mas a única coisa que eu sinto é raiva. Ele me trouxe aqui para ser o alvo de sua psicose e eu não me sinto nenhum pouco confortável com isso. Quem se sentiria bem com o próprio pai te olhando como se você fosse um suculento pedaço de carne pronto para ser mordido e devorado? Isso está além de todas as merdas que eu já tive que aguentar. Sinto asco toda vez que ele está perto de mim.

Mas hoje, ao invés de tentar abrir a minha porta e desistir por estar trancada, ele dá algumas batidas. Eu não respondo, mas me mantenho em alerta, meus olhos presos na fechadura da porta, temendo que talvez ele tenha uma cópia da chave.

— Dulce? Não vai jantar? — ele diz do outro lado.

Jantar? São onze da noite e o Hector trouxe comida para mim mais cedo, já que me recusei a descer.

— Eu pedi pizza! — mais uma vez, ele mexe na maçaneta.

— Mas que porra? — sussurro.

— Dulce, querida, está me ouvindo? — ele bate de novo.

Cubro meus ouvidos com as mãos quando ele começa a insistir demais, batendo e balançando a maçaneta enquanto sua voz aumenta de tom.

SirenaOnde histórias criam vida. Descubra agora