Uma Taberna durante a Noite - Augusto

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- Me fale sobre Catherine. – Linda diz. Eu a encaro sobre o meu próprio ombro. Estamos sentados na beira da praia, vendo o navio ser carregado. O sol já está deixando o céu, pintando tudo de tons alaranjados. Eu senti falta do cheiro do mato. As arvores chacoalham, fazendo barulhos estranhos, abrigando pássaros, fazendo sombra em nós. Eu coloco mais nozes na minha boca. Olho para o mar, tentando entender de onde vem aquela pergunta? O que exatamente ela quer saber?

- O que você quer saber? – Eu pergunto. Ela não parece saber. Talvez só esteja tentando entender pelo quê ou por quem eu me apaixonei? Ela brinca com um graveto, desenhando na areia que afunda embaixo dos nossos pés. O contraste do pôr do sol em sua pele deixa os tons de dourado em maior evidência.

- Não sei. Imagine, que a hospedaria que Arthur escolheu para deixar sua noiva, é a hospedaria dessa cidadezinha... – Eu a encaro, ela busca as palavras certas, seus olhos castanhos escuros fitam o nada. – O que você diria a ela?

Eu engulo em seco. Sei que Catherine não está na hospedagem dessa cidade. Ela deve estar no porto de Viana. Onde Teresa está atracado. Esperando por nossa chegada. Arthur, a essa altura deve estar se vangloriando, com não um, mas dois possíveis casamentos. Sentado na poltrona que outra hora fora do pai de Linda.

- Eu diria que senti falta de sua risada e que eu já cuidei de tudo. Ela vai estar a salvo agora. – Digo por fim. Mordendo a parte interna dos meus lábios. Linda pareceu contente com a resposta. Pequenas demonstrações de afeto são o suficiente para motivá-la.

Tavaras caminha sob a areia em nossa direção. Grita alguma coisa para os marujos que ainda estão carregando o navio. Chuta a bota de Linda quando seus pés alcançam os da garota sentada ao meu lado. Um tipo de cumprimento estranho. Linda a encara.

- Vamos ficar essa noite aqui. Essa cidade mudou muito desde a última vez que estive aqui. – Tavaras olha por baixo do seu chapéu, seu foco busca informações para trás das montanhas de areia que separam a praia da civilização. Tavaras não ficou anos sem sair da ilha, alguns eventos a fizeram se ausentar, não muitos, mesmo assim, a ilha não era uma prisão perpétua para ela. Obviamente, nada como estar de volta atrás do timão. É possível observar um brilho novo em seu olhar, que ressalta a cor azul. É como se cintilasse. Linda me encara, como se tivesse ganho uma aposta mental. Eu do uma risada nasal.

- Tudo bem! Imaginávamos que ficaríamos aqui. Peguei um quarto em uma hospedaria camponesa. Vocês vão ficar no bordel? – Linda dispara tudo de uma só vez. Tavaras não parece se importar ou se impressionar, apenas dá de ombros.

- Provavelmente. – Tavaras confirma. – Duvido muito que essa cidade vá oferecer alguma informação útil para nós, mas é bom que estejamos em recintos diferentes. Assim, nenhum incêndio acidental é capaz de matar a tripulação inteira. – Ela faz graça de uma tragédia, que eu sei ser real. Já li sobre algo parecido nos diários do Duque. Um arrepio sobe pela minha espinha. Lutei a minha vida inteira para não ser um pirata, para me infiltrar na corte e para deixar todo o meu passado afundar em alto mar... Os últimos dias tem sido como se afogar.

Berenice caminha com outras três mulheres em direção a entrada principal do porto. A essa distância, só conseguimos identificar seu vestido, um tanto mais estravagante do que a ocasião exige. Tavaras também parece notar e ela dá um sorriso nostálgico. Não a culpo, os melhores dias de sua vida foram ao lado daquela mulher. Eu também sorriria.

- Amanhã, meio sol, vamos embarcar. Nem uma lua a mais. – Tavaras diz, mudando seu sorriso para um tom autoritário. Ela não fala para mim, sempre com Linda. Linda se levanta, são quase da mesma altura. Ela sacode as tranças e se põe a pensar.
- Em quanto tempo chegamos em uma cidade que vai valer a pena? – Linda questiona?
- Estou evitando Torunta, se é isso que quer saber. – Tavaras admite. As duas se encaram.
- Isso quer dizer que a nossa próxima parada vai ser Viana? – Eu questiono. As palavras secaram minha boca. As duas parecem lembrar que eu existo. Tavaras confirma com um aceno de chapéu. Vamos ter duas semanas, entre onde estamos e Catherine.

TormentaOnde histórias criam vida. Descubra agora