Nada de sorte - Augusto

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A embarcação já estava quase pronta para zarpar quando colocamos nossas botas sujas de lama no convés. Tavaras torceu o nariz por baixo do chapéu, encarou o Bardo que nos acompanhava, mas não nos disse sequer uma palavra. Dava ordens aos mais atentos, sem precisar levantar o tom de voz.Berenice, por outro lado, assim que repousou os olhos em nossas caras amarguradas pelo sol, apressou o passo em nossa direção.- Onde diabos passaram a noite? Com os porcos? – Ela questiona enquanto tenta tirar a sujeira das roupas de Linda. Visivelmente desconfortável com os cuidados da tia.Berenice me encara, esperando uma resposta. Eu do de ombros, abro e fecho a boca, tento articular alguma frase completa, mas não consigo balbuciar nada.- Agora nós temos um bardo! – Linda diz. Berenice sustenta o olhar claro nas castanhas amendoadas de Linda. Em seguida observa o maltrapilha que nos acompanha com seu instrumento de corda improvisado. - Nós já tínhamos um bardo. – Berenice conclui. Linda chacoalha as tranças. - Bom, agora nós temos dois. Quanto mais musica e mais histórias nesse navio, melhor, não concorda? – E então Linda faz aquela coisa, um sorriso doce que curva os cantos de sua boca, deixando suas bochechas maiores e mais coradas. Sua pele reluz um brilho suave e angelical. O disfarce de um predador. Berenice conhece a artimanha e mesmo assim, cai. Levanta a mão que esta segurando o leque de tecido cheio de babados e o aponta para as entradas do navio. - Vão! Eu não quero mais vê-los. Estamos atrasados. – Ela nos expulsa do convés. Seguimos pelos corredores escuros e sujos do navio. Tem cheiro de madeira podre. O bardo nos segue, sem saber direito o que fazer. Linda o apresenta para alguns homens da tripulação que o acolhem e o guiam para os seus aposentos.Ainda não entendi muito bem porque Linda resolveu que queria um bardo, esse, mais especificadamente. Em algum momento na noite passada Linda se convenceu de que esse homem a cativara e hoje pela manhã ela o quis trazer junto consigo, como um animal de estimação. Obviamente eu tentei convencê-la de que isso não era uma boa ideia e de que o homem deveria ter família. Ela me respondeu com a maior atrocidade dita por ela essa semana "Bardos não tem família". Atrocidade essa, que o homem em questão, concordou.Saímos da Taberna sem comer o desjejum, eu estava enjoado de toda cerveja barata e Linda queria ovos, não tinha ovos, sendo assim, ela não quis mais nada. Vez ou outra no caminho de volta ao navio eu pude observar seu rosto fitando o horizonte e me perguntei se ela estava pensando em nós? No que me propôs durante a noite? M perguntei se ela pensa sobre essas coisas depois que diz? Ou enquanto ela diz? Me perguntei se o peso das palavras pra ela, tem o mesmo que pra mim? É muito confuso estar ao lado de alguém que vivencia o mundo de uma forma tão única que faz com que suas leis se dobrem ao seu favor. Eu já tentei convencê-la de que as coisas funcionam de uma certa maneira, porque essa maneira foi testada e validada como a mais correta, a mais eficiente e benevolente para nós, como indivíduo e como uma sociedade racional. Ela parece ter um apresso por desfavorecer esses estudos, bem na minha frente. Ela os questiona e como se nunca tivessem sido postos a prova antes, os bons costumes se desmancham, se esfarelam como tortilhas, entregando a ela exatamente o que ela esperava conseguir: A certeza de que eu não tenho certeza sobre coisa alguma.E eu fico sem saber como reagir, porque de fato, como isso funciona? Como alguém pode ser regido tão bem pelo acaso? Abençoado pela sorte?E só então, quando percebi por onde meu pensamento estava me levando que reparei em seus olhos nos meus. Vazios, como um cais no inverno. Não tem nada de sorte na vida de Linda. Não tem nada de belo.Ela é a personificação do que as lendas das sereias nos contam. Uma dor dilacerante, presa em um corpo fatalmente lindo. Um canto atraente e ensurdecedor. O caos a deriva.O nosso caminho foi silencioso, eu com meus pensamentos, Linda com os seus e o bardo se arrependendo a cada segundo. Eu conseguia sentir o gosto de seu desespero. Ao mesmo tempo que penso na quantidade irresistível de dinheiro que Linda lhe ofereceu. Não é algo que acontece todos os dias "gostei de sua música, eu tenho um barco, gostaria de ser meu bardo particular?". Coisas estranhas costumam me cercar, desde que pisei naquela ilha.Agora estou vendo o navio zarpar. Vamos chegar até Arthur em breve. Espero sobreviver até lá.

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