Nem frágil, nem um monstro - Linda

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Passei o dia em uma parte escura do navio. Aqui só tem caixotes, palha e cabras. A iluminação é péssima. Velas tremulas. Mas é afastado de olhos curiosos e tem espaço suficiente para arremessarmos facas um no outro, sem sermos surpreendidos com olhares curiosos.

- Quem você acha que foi? – Augusto me pergunta, chutando a minha bota de leve, apenas para me resgatar do submerso inconsciente. Estamos sentados lado a lado em cima de uma das caixas. Algumas delas já estão com furos das nossas facas. Uma denúncia do nosso comportamento anterior.
- Eu não sei. Talvez a moça da cozinha. Ela parece muito suspeita pra mim! Ninguém deveria fazer pães doces tão bons. – Eu digo, fazendo piada com a situação. É assim que eu lido com os meus sentimentos. Eu os encubro de sorrisos e sarcasmo, até minhas preocupações ficarem imperceptíveis. Augusto me responde com uma risada nasal.
- Não temos nenhuma prova, nenhuma pista. Apenas três mortes. Parece que estamos vivendo uma das histórias dos diários do padrinho. – Augusto reclama antes de se pôr de pé. Eu o encaro, querendo encontrar nele respostas para a minha confusão mental.
- Talvez seja só isso que a pessoa quer. Nos colocar medo. Nos fazer lembrar que no mar as regras são diferentes e que eu sai por conta própria da proteção da ilha... – Começo a falar em cascata, balanço minhas tranças conforme as palavras jorram pra fora, cada som melódico acompanhado de um gesto com as mãos. Minhas facas repousam ao lado do meu corpo, minha pele se arrepia com o turbilhão de emoções. – E está funcionando! Eu estou com medo! Não por mim! Eu não ligo a mínima para a minha vida, eu morri com 5 anos naquela cabana, minha alma descansa no colo de minha avó, meu corpo é só um casulo ambulante. -Eu engulo a angustia para continuar falando - Mas eu tenho medo por todas essas pessoas que estão agora mesmo, fazendo com que essa embarcação não afunde. – Eu nem consigo prever as lagrimas, quando percebo, já rolaram pelo meu rosto, deixando rastros salgados abaixo dos meus olhos. – Essas pessoas que ainda habitam seus corpos, elas confiaram em mim e na promessa de que estariam seguras, de que eu retomaria o reinado do meu pai e seria uma melhor governante. Essas pessoas... eu sou responsável por essas pessoas. – E então Augusto me abraça.

No início o toque é desconfortável, estranho, repentino. Não gosto da aproximação. Me deixa vulnerável. Mas no instante seguinte meus braços contornam a sua cintura e eu o aperto contra o meu corpo. Simplesmente deixo as lágrimas saírem.

Eu não me lembro quando foi a última vez que me senti assim. Sempre acreditei que o choro não resolve nada. Que é uma perda de tempo. O desespero só deixa a situação ainda mais desesperadora. Mas nesse caso, o desespero não anunciou a sua chegada, ele apenas se fez presente e Augusto o acolheu. Essa sensação é boa. É como um cobertor em um dia frio. É bom sentir que pode contar com algo externo. O cobertor não vai fazer o dia ficar mais quente, mas só de tê-lo ali, passamos a acreditar que não vamos congelar até morrer.

- Estamos aqui porque queremos estar. Você não obrigou ninguém e nem é responsável pelas catástrofes que o mar pode trazer. – Foi o que ele me disse. Enquanto seus braços serviam de travesseiro para o meu esgotamento emocional.

Ficamos ali por mais um tempo. Parei de chorar, conversamos sobre outras coisas. Arremessamos facas até nossos braços doerem e quando a fome nos alcançou fomos até a cozinha.

As mortes deixaram umm rastro em todos os integrantes da tripulação, que agora andam desconfiados. Minha comida está sendo provada por duas pessoas antes de chegar a minha mesa. O que me deixa ainda mais desconfortável. As crianças do navio não ficam mais junto com suas mães, uma das mulheres da cozinha passou a ser a encarregada e cuidadora, agora as crianças ficam em regiões específicas do navio, com essa mulher como tutora. Todos os turnos são mais curtos, aumentando a rotatividade dos marujos. Tavaras fica mais tempo no timão do que no escritório e Berenice não para de escrever cartas. E é claro, todos me olham como se eu fosse um bichinho de estimação que precisa ser cuidado e ao mesmo tempo temido.

Perdi o apetite na metade do meu prato. Me despedi de Augusto e tomei o rumo da minha cabine. Decidi passar nos aposentos de Berenice antes de me recolher.

Cheguei até a porta, mas antes de bater eu ouvi Tavaras dizer:

- Ela não é mais uma criança! Ela sabe se defender. Ela pode tomar as próprias decisões.
- Ela é nossa responsabilidade! Linda pode ter crescido, mas que tipo de vida foi essa que ela teve? Ela sequer existia até 1 ano atrás. O mundo inteiro achava que ela estava morta junto com seus pais. Tavaras, nós precisamos dar meia volta e fingir que tudo isso não passou de uma prepotência arrogante.
- Nós não podemos voltar agora sem demonstrar nossa fraqueza. E Linda não deveria ser nossa responsabilidade. O amor que sentimos pelos pais dela não é uma cláusula contratual que se estende a responsabilidade de sermos tutoras para sempre.
- Você não pode estar falando sério! Linda é nossa filha.
- Sim. E é mais letal que as facas que você empunha por baixo de suas vestes.
- Só porque alguém é perigoso, não significa que não tenha o direito de ser amado. – Consigo ouvir a voz de Berenice engasgando. O mesmo nó está presente na minha garganta. Minha mão continua parada no ar, sem coragem de bater na porta.
- Não estou dizendo que eu não a amo Bere. Estou dizendo que ela é capaz de continuar nesse navio e se defender, caso algo aconteça. Que não é mais nossa responsabilidade as decisões que Linda toma. Diria até que as mortes de ontem à noite poderiam muito bem terem sido obra dela, caso seu estilo de luta não fosse mais teatral. No entanto eu a conheço bem de mais para dizer que se assim fosse, os homens estariam empilhados no meio do convés como um bolo de carne. De nós duas, é você, que não confia na mulher que Linda se tornou. Na idade dela, eu já estava atrás do timão.

Eu não sei como a conversa acabou, provavelmente com as duas sem roupa. Eu não me importo. O recorte das falas ecoou em minha mente. Tudo que eu consegui ouvir foi que ambas acreditam que eu não consigo lidar com as minhas emoções, e que sou perigosa por conta disso, incompreendida, traumatizada. Uma quer voltar para a ilha, onde o problema, no caso eu, possa ficar isolado. Já a outra, quer me jogar na linha de frente como uma arma nada secreta.

Quando eu percebo, estou cambaleando em direção a minha cabine. Abro a porta, passo pela soleira e depois a fecho. Vou até o baú, reviro as coisas que estão lá dentro, pego uma garrafa de rum, tiro a rolha que a tampa e depois me sento no chão ao lado da minha cama. Do um gole grande, a garganta arde, tusso algumas vezes. Limpo a boca na manga da minha roupa.

Choro de novo, dessa vez um choro de raiva. Os olhos presos no que não estou vendo. Eu não quero ser frágil, mas também não quero ser um monstro.

TormentaOnde histórias criam vida. Descubra agora