Assassinos melhores - Linda

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A proa virou um julgamento a céu aberto. Tavaras está guiando as acusações e ouvidoria quando eu e Berenice nos juntamos aos tripulantes. Alguns estão se acusando e trocando ofensas, enquanto outros só parecem muito assustados. Eu busco os rostos familiares entre eles. Augusto está próximo de Tavaras e o bardo que adotamos está sentado em caixotes um pouco mais atrás. Percebo uma movimentação em seu entorno.

- Por que o bardo está sentado lá? – Questiono Berenice. Ela fala baixo perto de meu ouvido.
- Ele é a única pessoa estranha no navio. Até então a viagem estava sendo segura e tranquila. – Berenice responde. Uma pontada de culpa aperta meu peito. Faz sentido o homem ser o primeiro suspeito, mas não me convence.
- Também estamos na primeira noite depois da primeira parada em terra. Muitas pessoas podem ter sido subornadas. Além disso, o que nos faz pensar que essas mortes não são casos isolados? – Eu começo a argumentar com Berenice que para de andar em direção a Tavaras e me encara, o semblante de dona de casa, mãe, cuidadora e provedora do lar deu lugar a um rosto gélido, astuto e mortal. Ela estala a língua e me responde quase com um assovio melódico e infernal "você não entende nada do mar".

Eu engulo em seco. Ela tem razão. Não sei o que aconteceu essa noite, mas foi capaz de mudar tudo.

Berenice tomou seu lugar ao lado de Tavaras e eu a segui poucos passos a trás.

A reunião não se estendeu por muito mais tempo. Não se podia concluir nada. Três homens morreram, os três que estavam de vigia na proa. Não se sabe quanto tempo o navio ficou a deriva, talvez entre uma troca de turno ou outra. As mortes foram limpas. Golpes de faca nas jugulares. Apenas o suficiente para matá-los. Nenhum item roubado, nenhum motivo aparente. Nenhum recado dado.

O navio voltou ao percurso normalmente assim que o revezamento de turno se consolidou. Os corpos foram juntados. Tavaras foi chamada. O navio foi revistado. Seja quem tiver sido, cuidou para que as roupas não fossem manchadas, que a faca fosse limpa, que não fosse visto.

Serviço de alguém que sabe o que está fazendo, não um bardo. Alguém que quer nos deixar com medo. E conseguiu.

Agora eu desconfio de todos. Quem matou esses homens? Pode ter sido qualquer um. Os rostos me encaram, consigo ouvir o que suas vozes não falam. Estão todos correndo risco por minha causa. Sabíamos que isso poderia acontecer. Sabíamos que mexer nesse império salgado despertaria a fúria de homens que já se acostumaram com o poder e fariam de tudo, para mantê-lo. É minha obrigação manter meu povo seguro. Não faço ideia de como posso fazer isso? Vejo o bardo tremer em cima daqueles caixotes, outra pincelada de culpa toma meu peito. Eu o convenci de que seria divertido, agora o acusam de assassino. De qualquer forma, não foi ele, a única arma que eu vi esse homem empunhar foi um arquétipo de violão.

Augusto se aproxima de mim, eu o encaro, vamos dobrar nossos horários de treino. Seja quem for o assassino, precisamos ser assassinos melhores. 

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