Os dias em terra são muito mais cheios que os dias em alto mar. Eu já tinha lido algo assim nos diários do meu pai. Ele sempre comentava sobre a poeira, sobre os costumes e sobre a comida. Posso ver a diferença agora. Passei uma noite em terra, depois de dias na água. Estou de volta agora e sinto o ácido do meu estomago chacoalhar em minhas entranhas. Não consegui comer nada desde o amanhecer. Um sentimento confuso se apoderou de meu peito. O sol raiou por cima do oceano e eu já quis estar fora da cama. Ouvi as mulheres limparem a taberna e as galinhas sem ovos cacarejarem. Desci as escadas da taberna velha e vi a menina limpando o chão onde homens nojentos deixaram parte de sua nojeira.
O bardo que cantava na noite passada estava dormindo em cima de uma das mesas, com um chapéu poido tampando parte do seu rosto. Cutuquei seu nariz com uma das minhas unhas. Seus olhos não abriram. As mulheres riram, e eu sorri também. A menina que limpava o chão se aproximou e ameaçou mexer em sua sacola de moedas, só então o homem pareceu estar entre os vivos. Ele me encarou confuso, enquanto a garota voltou para seus afazeres. Eu sentei na beirada da mesa.
A conversa não foi muito extensa. Eu tinha gostado da música, ele não sabia quem eu era, estava apenas fazendo seu trabalho, tentando ganhar a vida em um povoado que não entrega vida a ninguém. Então eu o convidei para que viesse conosco. O que ele estaria perdendo? Mais uma noite naquela espelunca? Então ele recolheu suas coisas, pagou sua conta, o que eu diria que, ao julgar pelo semblante de espanto da mulher atrás do balcão, não era algo que o bardo costumava fazer.
Logo depois Augusto se juntou a nós, tentamos sem sucesso um desjejum, depois nos colocamos a caminho da praia. Gostaria de dizer que foi aqui, entre a taberna e o mar, que o aperto no peito apareceu. Mas eu estaria mentindo. Ele já estava me assombrando, me perseguindo. Acordou comigo, empoleirado em meu colo. Me convenceu de que convidar um desconhecido para o meu barco era sim, uma boa ideia. Depois, veio me contando histórias, deixando meus pensamentos nebulosos. Me deixando aflita. Hora entregando passado aos meus pensamentos, hora entregando futuros hipotéticos e catastróficos. Um timão desgovernado, apontando para todos os lados, menos para o momento presente.
Aquele caminho torto e empoeirado até a beira da praia.
Está sendo a primeira vez em dias que acredito precisar tomar nota de meus pensamentos. Digo isso justamente porque estou acometida por esse sentimento. Sinto que se eu não o anotar, se não manchar o papel com a tinta que mancha minha paz, não serei capaz de pensar com clareza. Então me sentei na escrivaninha da minha cabine, nessa cadeira desconfortável e valorizei mais esse diário. Em algumas luas eu estarei em frente a Arthur. Não sei o que isso significa, ou o que deveria significar. Sei que nada antes disso fez sentido, sempre estive incompleta e tenho medo de que mesmo após encará-lo, isso não mude o fato, de que, o que foi capaz de me esvaziar, não é humano e por tanto, não pode me preencher.
Mal termino de anotar essas lamurias e escuto um barulho incomum vindo dos corredores do navio. Já é noite lá fora, costuma anoitecer mais depressa no mar. Devem ser os marujos se preparando para uma noite de vento forte. Esforço-me para ouvir algo a mais, mas não tem nenhuma novidade sonora. Tiro minhas roupas, apago a vela, deito em minha cama e tento não pensar em mais nada.
O que dura poucas horas.
Acordo com Berenice em cima de mim, completamente atordoada.
- Você está bem! Graças a deus! – Berenice não é religiosa. O deus cristão deve achar seu nome pronunciado por ela algum tipo de injuria.
- O que aconteceu? – Eu questiono, sentando na cama e tentando manter os olhos abertos. Ela caminha de um lado para o outro da cabine, procurando com os olhos evidências de alguma coisa...? Só então reparo em suas roupas. Nada de vestidos exagerados. Ela está usando calças de couro de coelho, botas, casacos bem presos e está armada. Seja o que for, isso não é um bom sinal.
- Três homens estão mortos. – Ela diz ainda de costas pra mim, quando se vira eu já estou de pé. Então essas são as reviravoltas marítimas que meu pai comentava em seus diários? Berenice espera algo de mim, mas tudo que eu consigo fazer é calçar meus sapatos.
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Tormenta
AdventureA protagonista é louca e vai se tornar a vilã que mata todo mundo no final. É um prato cheio, tem romance sáfico, umas cenas de sexo bem quentes, tem tramas, mentira, fofoca e traição. O livro é contado através do olhar de vários personagens simulta...
