Uma Taberna durante o Dia - Linda

98 3 0
                                        

Eu lembro dos relatos nos diários do meu pai. As mortes acontecendo em alto-mar. A dúvida se era algum tipo de peste? Se foram mortes acidentais? Ou assassinatos? O mistério que isso causava. O medo sendo tangível nas páginas.

É tudo diferente agora.

Talvez eu quisesse aquela adrenalina. Talvez eu ansiasse por um mar revolto. Por uma tempestade caótica, por um motim, por sangue. Por uma tormenta.

Mas tudo que o mar me trouxe, foram horas tediosas. Um infinito de tons azuis.

A viagem até a primeira parada, foi tranquila. O navio atracou pela manhã, conforme Tavaras havia previsto. Ela não envelheceu nada, se tratando do timão. Eu diria, que algumas vidas foram traçadas pelo destino e o dela, era ser capitão.

Eu já conhecia toda a tripulação. Sabia histórias (provavelmente mentirosas) de todos que dividiam o convés. Cada um tinha um motivo para estar abordo. Ou melhor, tinha um motivo para estar enfurnado naquela ilha. Talvez isso tenha contribuído para o meu tédio. Eu estava cercada de rostos que eu já conhecia.

Eu era a novidade, eu era o fantasma, mas nenhuma alma ali, era curiosa pra mim.

Agora, essa cidade, transbordava curiosidade.

Augustos disse o nome do cais. Eu o esqueci, assim que o som saiu pela sua boca. Eu estava eufórica. Mal dormi durante a noite. A cada balançada do navio, eu pensava "será que tem terra a vista?". Quando eu escutei Vascos gritar, de trás do binóculo, meu peito sorrio.

A tripulação desceu conforme o ordenado. Uma leva de pessoas confiáveis, primeiro, para sondar o território. Quando voltaram, passaram um relatório verbal para Tavaras e Berenice, que cochichavam coisas que "eu não entenderia". Algumas horas depois, a tripulação estava autorizada a desembarcar.

A ideia era passar apenas uma noite, repor os mantimentos e "buscar as informações da terra". A essa altura, cartas já tinham sido enviadas, mensageiros já estavam correndo com a notícia da minha vida. E essa era uma informação que poderia dividir nações, principalmente a nação do mar.

A orientação que Tavaras me deu, foi ficar perto dela e de Berenice, já para Augusto, era para que ele ficasse perto de mim.

O tempo que passamos na ilha e no mar fez com que eu e Augusto trocássemos conhecimento. Ele me ensinou estratégia e eu o ensinei a manusear uma faca. Ele teve avanços consideráveis, assim como julgo que eu também tenha tido. Agora, eu até estou usando sapatos!

Na primeira oportunidade que tivemos, eu desapareci. Levei Augusto comigo, porque eu tenho receio que ele acabe se matando.

- Eu preciso manifestar meu descontentamento com a ideia de nos infiltrarmos em uma cidade que não conhecemos, sem a devida proteção ou informações de campo. – Ele disse, como o frango que é. Mas dessa vez, ele não tremia. Falava baixo, por cima do meu ombro. Acredito que seja, porque estávamos atrás de caixotes vazios, na parte trazeira de uma taberna.
- Como você sobreviveu todos esses anos sem mim? – Eu pergunto, revirando os olhos. Ele pega uma das minhas tranças, coloca em sua cabeça e faz uma voz esganiçada "como você sobreviveu todos esses anos sem mim", ele diz. Eu puxo a minha trança de volta.
- Eu não entendo como eu tenho sobrevivido esses meses COM VOCÊ. – Ele me repreende. Eu me levanto de trás das caixas, ele se preocupa, olhando em volta. Eu bufo e começo a andar em direção a entrada da taberna. – Você não pretende entrar aí? Pretende? – Ele apressa o passo para me alcançar. Eu empurro a porta dupla e encaro o interior do recinto. Em minha cabeça, já tinha planejado todo esse momento. Grandes homens corpulentos ranhentos, bebendo cerveja suja, prontos para colocarem as mãos na recompensa pela minha cabeça. Mas tudo que encontramos foi uma mulher velha atrás do balcão, com um pano amarrado na cabeça e vários fios de cabelo suados emaranhados pelas bordas do tecido. Uma garota da minha idade, varrendo o recinto, que, cai entre nós, precisaria de muito mais do que uma vassoura para ficar limpo. Dois homens magros, já bêbados e umas três galinhas, ciscando os farelos dos pães.

Todos me encaravam. Incluindo as galinhas.

- Eu posso ajudar? – A mulher perguntou, passando um pano em cima do balcão. Eu encarava o espaço. Augustos precisou apertar os lábios para não rir. A garota desviou o olhar e continuou a varrer.
- Duas cervejas, por favor. – Eu disse. Caminhando em direção a uma das mesas. A mulher virou de costas para nós e serviu duas canecas nos barris que dividiam com ela o pequeno espaço atrás do balcão. Nos sentamos na mesa, eu não conseguia esconder meu olhar de decepção.
- Esperava algo diferente princesa? – Augusto debochou ao falar a última palavra. Eu o encarei, mordi os lábios e tive a certeza de que aquilo que meu pai disse ter vivido naqueles livros de couro idiota, era mentira. A mulher chegou com as cervejas, as colocou sob a mesa, sem nenhuma cerimônia, nos dando as costas logo após.
- Meu pai disse em seus diários, que as tabernas eram os melhores lugares para se fazer negócios. – Eu falo por fim. Bebendo um gole da cerveja. Talvez a pior que eu já tenha ingerido.
- E são. Mas não antes do meio sol. – Augustos diz, antes de beber a cerveja dele. Eu o encaro. Ele coloca a sua caneca sob a mesa e pisca um dos olhos. – Você esqueceu as aulas de estratégia? O mundo não funciona no tempo que você quer. Quanto mais sol lá fora, mais vazia fica a taberna. A noite, quando os camponeses e marujos terminarem seus serviços, é pra cá que eles vão vir. – Eu me reclino na cadeira, como se o que Augusto tivesse dizendo, fosse um grande segredo. – E se eu pudesse dar um conselho, seria procurar por um bordel e não por uma taberna. Pensando claro, nos negócios da sua família... – Ele continua falando, mas minha atenção é puxada pelas mãos da menina que limpa a taberna. Agora ela deixou de lado a vassoura e está recolhendo madeira para o forno. Um trabalho inútil. Mas próximo de nossa mesa...
- Garota. – Eu chamo. Ela para o que está fazendo, Augusto se interrompe no meio de sua fala, olha em direção a ela. Os bêbados estão discutindo entre si, alheios a nós. Eu faço um sinal com a mão. Ela se aproxima. Um leve tremor nos dedos. Eu conheço essa reação, é medo. – Eu e meu amigo acabamos de chegar de viagem. Conhece algum lugar que possamos nos hospedar? – Eu forço uma voz simpática, Augusto me encara sem entender nada? Ela sorri, um sorriso leve e frágil. Seus cabelos castanhos claros, seu vestido surrado, as manchas pretas da madeira que servia como carvão. Tudo construía um cenário familiar. Impedi que minha mente me levasse até Maria e tudo que ela fez com a minha família. Não, eu também não a culpo! Não poderia uma única garota ser a vilã. Meu pai era o vilão! No lugar de Maria, eu teria feito o mesmo.
- Nós temos quartos vagos. Mas eu recomendaria que os garantissem. A noite costuma ser difícil de encontrar hospedagem. – A garota diz. Tomando cuidado para não nos dar informações demais. Entendi. Esse era o seu trabalho. Coloquei a mão no bolso das calças, tirei uma moeda, coloquei sobre a mesa.
- Esse valor paga o quarto? – Eu perguntei. Ela consentiu. Sacudindo os cabelos.
- Vou prepará-lo para vocês. – Ela se colocou a caminhar. Parou uns dois passos de distância e voltou. – Perdoe a intromissão. Mas vocês são um casal ou gostariam que o quarto tivesse camas separadas? – Augusto começou a falar já com as bochechas rosadas. Eu sorri antes de dizer "camas separadas". Assim que a garota se afastou Augusto me encarou como se eu tivesse beijado a mãe dele.
- Por que temos um quarto em uma taberna? – Ele me questionou.
- Você disse que seria interessante estar em uma taberna durante a noite. – Eu digo, dando de ombros, antes de beber mais da minha cerveja.
- Nós temos um navio. E eu disse que seria mais interessante um bordel, que tem mais a ver com os negócios da sua família! – Ele parece um tanto quanto irritado. Eu do uma risada nasal.
- Onde você acha que Tavaras e Berenice vão estar hoje a noite? – Eu o encaro, levantando minhas sobrancelhas. Ele parece entender minha linha de raciocínio. – Vamos poupar tempo, se estivermos em dois lugares ao mesmo tempo. – Eu digo por fim. Volto para a minha cerveja.

Bebemos enquanto esperamos a garota voltar. Ela nos entrega uma chave de ferro, com um pedaço de madeira pendurado. Eu a cumprimento. Vou vê-la em breve.

Volto a sentir falta de Lucy. Penso em como Augusto consegue se manter longe da garota que ele diz amar? Vai ver ele não a ama. Ou o amor tem mais facetas do que eu possa imaginar.

TormentaOnde histórias criam vida. Descubra agora