Os dias se passaram de uma forma estranha. Não sei dizer há quantas luas estamos desde a última vez que estivemos em terra. Depois das três mortes, todos passaram a cumprir uma nova rotina de afazeres, em um primeiro momento a desconfiança se instaurou no ar, ninguém se prolongava em um mesmo espaço fora de sua rota. Voltávamos para as cabines assim que os deveres se encerravam. O bardo só cantava e tocava quando Tavaras estava presente. Eu mesma, só me permiti ser vista algumas vezes. Voltei a agir como um fantasma que sempre fui. Me escondi nos corredores do navio, fazia minhas refeições na cabine, só via Berenice, Tavaras e Augusto. E os evitava, sempre que podia. Estava me escondendo de mim mesma.
Hoje Tavaras me disse que vamos chegar em terra pouca coisa depois do pôr do sol. Tínhamos que discutir o plano para sequestrar Catherine. Então me vesti e vim até o escritório.
Aqui estamos sentados eu, Augusto, Tavaras e Berenice. Em volta de uma mesa larga, cheia de papéis. Tavaras fala sua estratégia sem parar, Augusto encara o centro da mesa como se ele fosse despencar e Berenice faz pequenas observações vez ou outra.
- Eu acho que deveríamos ir só eu e Augusto. – Eu digo por fim. Os três me encaram. – O plano é sequestrar a Catherine de uma hospedaria. Podemos fazer isso sem sermos vistos. Entramos e saímos com ela, sem que ninguém dê falta. Depois que ela estiver em segurança no nosso navio, vamos encontrar Arthur.
Augusto me encara como se eu tivesse dito a maior atrocidade que ele já ouviu. Berenice começa a contestar, já Tavaras não tira os olhos de mim.
- Acha que consegue? – Foi tudo que Tavaras disse. Eu sinalizo que "sim" com a cabeça. Augusto gagueja olhando para as próprias mãos em cima da mesa.
- Eu posso ir sozinha, se você está com medo. Mas eu não conheço a garota, você corre o risco d'eu trazer a Catherine errada. – Eu digo. Tavaras acha graça, Berenice a censura com o olhar.
- Eu acho arriscado! A essa altura a cidade inteira já sabe que a qualquer momento um navio estrangeiro vai chegar carregando você – Ela aponta pra mim – E você – Ela aponta para Tavaras – vão ter guardas em todas as portas. Capangas em cada canto de cada taberna. E o plano é vocês dois irem sozinhos?
- Não vamos entrar em nenhuma taberna. Também não vamos usar portas. Eu fui um fantasma a vida inteira. Vou continuar sendo. – Ao ouvir isso Berenice para de contestar. Não porque ela ache que não é perigoso, mas porque sabe que é um bom plano.
Por fim, concordamos com a minha ideia. Ela já passava pela minha cabeça desde o almoço na ilha em que sugeri que fizéssemos essa viagem. Acertamos os detalhes, nos preparamos o melhor que pudemos. Sai do escritório, estava pegando o rumo da minha cabine, quando Augusto me alcançou.
- Posso ir com você? – Ele me perguntou. Eu concordei. Caminhamos juntos pelos corredores frios e umidos sem dizer uma palavra. Entramos nos meus aposentos, me joguei na cama e ele se sentou na cadeira. Vi seus olhos se questionarem sobre a garrafa vazia de rum. – Você tem reposto o líquido dessa garrafa com os barris do porão? – Ele me pergunta. Eu retribuo com um sorriso sem graça. – Por que não me convidou? – O sorriso some. – Por que você está tão isolada? – Me reviro em cima da cama e dentro do meu próprio peito. – Eu fiz alguma coisa? – As perguntas dele me fazem querer arrancar minha pele, como se tudo que eu estivesse sentindo pudesse ser desprendido de mim. Me sento na cama.
- Você não fez nada. Eu só sou assim. – Tento resumir tudo em uma explicação sucinta e funcional. Ele me devolve com uma careta.
- Você não é não! Inclusive, nunca entendi como conseguiu passar despercebida todos esses anos sendo a pessoa mais espalhafatosa que eu conheço?! – Eu sorrio, dessa vez porque eu realmente achei graça. Meus olhos buscam o abrigo dos dele.
- Você só me encontrou porque estava procurando por mim. As pessoas só enxergam aquilo que elas querem enxergar. – Foi tudo que eu consegui dizer. Não tem como explicar para ele, por mais que eu queira, tudo que eu estou sentindo. Eu não saberia, não consigo nomear, não consigo entender, não consigo lidar.
- Pois eu digo que estou te vendo agora. Estou aqui, de frente para você, te enxergando e sei que não está tudo bem. – Ele se apoia em cima dos próprios joelhos, me olha nos olhos por tempo suficiente, antes que eu desvie o olhar. Levanto para pegar a garrafa de rum, ele me segura pelo pulso. – Me explica? Me deixa entender o mundo que existe embaixo desse seu casulo? – Eu aperto os olhos. Respiro bem fundo e me sento na cama mais uma vez. Minhas pernas tremem, é assim que eu retenho a ansiedade. Meus dedos finos, compridos e tortos se entrelaçam. Eu o encaro.
- Eu tenho em mim, sentimentos bagunçados. Nunca compreendi o mundo da mesma forma como minhas mães. Elas se frustram pouco, ou quase nunca. A raiva delas é possível de conciliação. Quando elas choram, é um choro de tristeza, que logo da lugar a alívio. Quando elas sorriem, é uma verdade linda e absoluta. – Ele me encara sem dizer uma única palavra, tomando todo o cuidado para que eu não pare de falar. Ele realmente quer me ouvir, quer me entender. – Eu percebi muito nova que as minhas frustrações me corrompem, me despedaçam, minha raiva me cega, me impedindo de pensar, eu ajo por impulso, por sobrevivência, como se cada passo meu fosse em um campo minado, quando eu choro, eu sinto que vou me afogar, meu peito dói, me falta o ar, meu corpo não sabe lidar com as minhas emoções, o alívio, ele nunca vem e quando eu sorrio... – Ele abre um sorriso leve, como quem espera uma boa notícia, eu mordo meus lábios, porque até mesmo agora, eu sinto que vou desapontá-lo. Quando deveria ser sobre mim, quando eu deveria ser vulnerável e compreendida, mesmo agora eu tenho medo de não corresponder as expectativas. – Eu não sorrio com verdade. Minha felicidade, tem tempo limitado. – Eu desvio o olhar. Ele puxa meu queixo em direção a ele, mas não diz nada. Então eu continuo. – Eu busquei observar outras pessoas. Todas elas pareciam ser como as minhas mães, não como eu. Até que percebi, que mesmo que eu encontrasse alguém, tão corrompido, tão quebrado... essa pessoa poderia estar fazendo o que eu faço de melhor.
- Disfarçando. – Nós dois dissemos em uníssono. Então eu voltei a encarar meus dedos tortos. – Mas por que você está se escondendo? Por que não me deixa fazer parte desse emaranhado de sentimentos? – Eu ri da pergunta tola dele.
- Você está pedindo para fazer parte do que eu não queria ter que fazer? Por que eu te arrastaria para um mar que não da pé?
- Por que eu sei nadar. – Foi tudo que ele disse. Então foi minha vez de abraçá-lo. Ele pareceu surpreso, mas não demorou nem um segundo para me confortar com seu corpo.
- Eu não quero ser um monstro. – Eu digo. A voz abafada contra seu peito.
- Você não é. – Ele me conforta, fazendo carinho em minha cabeça.
Meus olhos estão molhados, os dele também. Nos encaramos por um breve instante, antes dos seus lábios encontrarem os meus. Sua boca tem gosto de charuto, a minha provavelmente de rum. Ele me reclina na cama, eu deito, o corpo dele em cima do meu. Os beijos ternos dão lugar a uma vontade feroz. Eu puxo sua camisa por cima de sua cabeça, ele abre os botões do meu colete. Eu beijo seu pescoço, ele rasga minha blusa, deixando meus seios à mostra. Eu arranho suas costas, ele desce uma de suas mãos por dentro da minha calça. Eu abro o seu cinto, ele coloca um de seus dedos dentro de mim. Um gemido invade minha garganta. Ele volta a me beijar. Eu tiro o restante de suas roupas, ele faz o mesmo por mim. Seu corpo nu é um privilégio. Seu olhar sedento me faz acreditar que me ter é uma boa visão também. Ele encaixa seu membro em mim e empurra. Eu finco minhas unhas na cama. Ele estoca com força, como se pudesse tirar toda a escuridão que está em mim. Seu corpo arrepia ao meu toque. Seus mamilos duros roçando minha pele. Ele geme em meu ouvido. Nossos corpos no mesmo ritmo. Ele está cada vez mais ofegante. Estamos suados, minhas pernas em volta da sua cintura, suas coxas flexionadas em cima de mim. O movimento me faz querer continuar cada vez mais, estar aqui, me faz parar de pensar. Um balsamo para meu corpo e minha mente. Ele aperta a cama, para não me machucar, inclina o queixo para o alto, uiva como um animal selvagem, meus peitos imploram pela sua boca, meus cabelos grudam na minha pele molhada, ele empurra mais uma vez, com mais força, eu tenho vontade de gritar, mas mordo meus lábios para frear o som, ele sorri quase diabolicamente, antes de jogar todo seu leite dentro de mim.
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Tormenta
AdventureA protagonista é louca e vai se tornar a vilã que mata todo mundo no final. É um prato cheio, tem romance sáfico, umas cenas de sexo bem quentes, tem tramas, mentira, fofoca e traição. O livro é contado através do olhar de vários personagens simulta...
