Terracota amanheceu em meio a um temporal inesperado. Com as temperaturas amenas dos últimos dias, ninguém poderia ter imaginado que teriam um dia assim, melancólico, logo nas primeiras horas da manhã.
Imersa em pensamentos, Anne observava as gotas de chuva caindo do infinito e sendo engolidas pelo chão arenoso, em um espetáculo maravilhoso, orquestrado pela mãe natureza.
Seus pensamentos não estavam exatamente ali, pois as lembranças que carregava no peito estavam mais fortes que qualquer outra coisa naquele dia.
Ela se recordava bem de quando pisara na fazenda dos Blythe pela primeira vez. Tudo era novo e imensamente incrível aos olhos da garotinha de 10 anos, que passara boa parte de sua infância mudando-se de um lado para outro.
Não podia dizer que Bertha fosse uma mulher constante em suas atitudes. Ela mudava de ideia repentinamente, carregando Anne por todos os lados e, em todos os seus anos de vida, tinha morado em mais lugares do que podia se lembrar, até que conheceu William Blythe.
Terracota fora o primeiro lar de verdade que tivera. Ali, ela pensara que criaria raízes e foi a primeira vez também que sentira que tinha uma família de verdade. Por isso, fora tão difícil ir embora; seu jovem coração sangrara de um jeito que lhe causara uma mágoa profunda.
Anne sentira como se tivesse sido sua culpa, porque ninguém sabia o quanto pensara que John as mandara embora por não ter o sangue legítimo dos Blythe em suas veias. Era uma bastarda, que não sabia quem fora seu pai, estava vivendo ali como um favor ou pela benevolência do dono da fazenda e não porque era desejada ou amada.
Só ela sabia o quanto chorara lágrimas amargas, rezando todos os dias e prometendo ser boazinha se pudesse voltar para o seu tão amado lar. Por isso ela não acreditara quando saíra de Terracota, segurando a mão da mãe, enquanto olhava para trás, observando Gilbert se despedir dela com o olhar.
Ela nunca esquecera aquela cena, como nunca mais se sentira segura mesmo depois de anos vivendo em Los Angeles. Terracota sempre estivera em seu coração e era ali que desejava ficar, especialmente agora que sabia de tudo.
A lembrança do que Gilbert lhe contou chegou com força, fazendo-a suspirar e mergulhar nas emoções que aquele fato ainda lhe causava.
― Preciso te contar uma coisa― ele dissera na ocasião, enquanto ela estava deitada na cama dele, com a cabeça apoiada no colo do rapaz.
― O que é? ― Anne perguntara, estranhando a expressão séria do rapaz.
― Eu descobri o que aconteceu com sua mãe ― o rapaz revelou, fazendo Anne se levantar de onde estava e dizer:
― Do que você está falando?
― Do motivo de tia Bertha ter sido expulsa de Terracota ― Gilbert respondeu, fazendo Anne engolir em seco e declarar:
― Não sei se quero saber. ― Sua mente se fechou para qualquer pensamento, pois o medo de saber a verdade realmente a pegou naquele instante em que ainda se sentia vulnerável. Ela ainda acreditava na inocência da mãe, mas sempre havia um por cento de chance de que a história não fosse como pensava, e Anne não sabia se aguentaria se decepcionar mais uma vez.
― Acho que vai gostar do que tenho a lhe contar ― disse Gilbert, segurando a mão dela entre as suas. ― Tia Bertha é inocente de qualquer acusação que tenham feito contra ela. Quando fui à casa de Winnie para tirar satisfações do que ela tinha feito com você, eu e meu pai descobrimos a verdade. A mãe dela inventou toda aquela história que culminou na expulsão de vocês daqui. O pai de Winnie ameaçou ir embora de casa por conta de sua paixão pela tia Bertha e a mãe deu jeito para que a tirassem de seu caminho, contando uma enorme mentira ao meu pai, que se viu na obrigação de mandá-la embora. Sua mãe não teve culpa nenhuma ― contou Gilbert, enquanto a ruivinha o olhava perplexa.
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The Tutor- Anne with an e
FanfictionA Fazenda dos Blythe fora o paraíso dourado de Anne até seus dez anos de idade, onde ela desfrutava de uma infância feliz ao lado de sua mãe, de seu padrasto, sua meia irmã Ruby, cinco anos mais nova, e Gilbert Blythe, por quem nutria uma paixonite...