Capítulo 35 - O pedido

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Anne nunca pensou que seria tão divertido morar com seu avô. Ela não se lembrava de essa faceta engraçada que ele vinha mostrando nos últimos dias, e era exatamente desse tipo de leveza que estava precisando naquele ponto de sua vida.

Naquele instante, ambos estavam na cozinha, onde Marilla Cuthbert era a rainha absoluta, não os acompanhava, pois ela havia viajado por alguns dias e não tinha dito quando voltaria. Anne nunca tivera muito contato com a irmã de seu avô quando era mais novo.

A expressão sisuda no rosto enrugado nunca a animara a se aproximar. Marilla lhe causava medo naquela época, e sempre que ela aparecia quando estava na companhia de Matthew, Anne dava um jeito de desaparecer.

Agora, pensando sobre seu comportamento, a ruivinha percebeu seu exagero. Marilla era só uma mulher que não gostava de desperdiçar seu tempo com conversa fiada. O que ela gostava mesmo era ficar em sua cozinha, testando receitas novas. Esta era a única distração que lhe agradava, além de seus bordados.

Apesar de seu jeito sério e de poucos sorrisos, Marilla tinha um imenso coração. Era solidária e prestativa, e nunca se recusava a ajudar alguém em caso de necessidade. Poucas vezes, Anne a ouvira dizer não a alguém e, do mesmo jeito que ela podia ser enérgica e autoritária, também ofertava seu apoio na mesma intensidade.

― O que acha de fazermos as panquecas de sua mãe? ― Matthew perguntou, limpando as mãos no avental imaculadamente branco .

Seu avô tinha um ritual todo especial para cozinhar. Além do avental, ele também usava luvas e um chapéu de chef na cabeça, que lhe dava um certo ar cômico, quase provocando em Anne um acesso de riso.

― Algum problema? ― Matthew perguntou, observando o leve franzir de testa de Anne, que se controlava para não soltar uma grande gargalhada.

― Não, acho sua ideia das panquecas muito boas. Gilbert adora. ― Anne respondeu, limpando uma mancha de farinha de sua camiseta com um guardanapo de papel.

― Espero que ele venha para o lanche da tarde. Você me disse, que ele não trabalharia o dia todo hoje.

― Sim, ele vai me levar para Los Angeles. Preciso resolver sobre o meu trabalho e a faculdade. Eu já conversei com meu chefe por telefone sobre isso. Ele disse que deixaria os papéis de minha demissão prontos para que eu pudesse assiná-los ainda esta semana. Mas quero resolver tudo isso logo. Não quero perder mais um dia na faculdade. ― Anne respondeu, misturando os ingredientes da panqueca com uma colher de madeira.

― Eu fico muito satisfeito de que tenha voltado, mas você tem certeza de que quer ficar em Terracota? John não é um homem muito fácil e tenho medo do que ele pode fazer com você nestas terras. ― Matthew disse, olhando-a com preocupação.

― Eu tenho a pessoa que mais importa do meu lado. John não se atreveria a passar por cima de Gilbert depois da conversa que tiveram. Apesar do homem terrível que ele é, o pai de Gilbert o respeita e isso é o que mais admiro na relação dos dois. ― Anne respondeu, adicionando mais farinha à massa de panquecas que estava fazendo.

John Blythe era um homem muito duro. Talvez os anos e os revés da vida o tivessem deixado assim. Quando ela tinha dez anos, se lembrava dele como uma pessoa de fala mansa e educada. Dificilmente o via irritado com alguma coisa ou sendo intransigente com alguém. Anne não entendia como ele se tornara essa pessoa detestável e autoritária. Esse John Blythe de agora não se assemelhava de forma nenhuma com o tio que um dia ela estimara.

― Espero que esteja certa, porque você está sob minha proteção agora e, se ele fizer algo contra você, terá que acertar contas comigo também. ― Matthew disse em seu jeito calmo de ser, mas Anne conseguiu sentir a firmeza de suas palavras.

The Tutor- Anne with an eOnde histórias criam vida. Descubra agora