38. O êxtase.

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Seulgi estava sentada no velho sofá de couro encostado à parede lateral, e Irene, enroscada em seu torso, ouvia o compasso da respiração dela como se fosse a única música que quisesse ouvir por toda a vida. As pernas de Irene estavam sobre as de Seulgi, e os braços dela a envolviam com firmeza e carinho, como quem segura algo que nunca mais quer soltar.

— Eu tô tão aliviada, Seulgi… — Irene murmurou, com a testa encostada no ombro da outra. — Saber que você ainda pinta. Que não se perdeu de si mesma.

Seulgi não respondeu de imediato. Passou os dedos devagar pelas costas de Irene, traçando linhas imaginárias como se estivesse desenhando nela.

— Por muito pouco, eu me perdi. — respondeu, enfim. — Quando entrei na faculdade de gastronomia, comecei a esconder. Apaguei tudo que pudesse me lembrar do que eu deixei pra trás. Inclusive você.

Irene ergueu o rosto, os olhos presos nos de Seulgi.

— Mas por quê?

— Porque doía demais. Pintar me lembrava tudo o que eu queria ser e que eu… não podia. Então tentei parar. Jurei que era pra sempre. — Ela respirou fundo, olhando em volta, como se revivesse aquele período. — Mas não consegui. Era mais forte que eu. Um dia, quando começamos a reformar o restaurante, vi esse galpão velho e pensei… talvez aqui ninguém veja. Talvez aqui eu possa existir sem ter que me explicar pra ninguém.

Irene apertou os dedos no braço de Seulgi, com delicadeza.

— Você nunca precisou se explicar pra mim.

Seulgi a olhou, com um brilho suave nos olhos.

— Eu sei. Mas eu precisava me explicar pra mim mesma. E eu… não conseguia. — Ela fez uma pausa, olhando ao redor do galpão. — Nunca esperei que minha mãe soubesse desse lugar. Sempre achei que ela estava ocupada demais controlando o que eu devia ser pra perceber o que eu ainda era, escondida aqui dentro.

Irene ergueu o olhar, os dedos traçando um carinho suave no braço de Seulgi.

— Ela sabia. E mesmo com toda a rigidez dela… ela respeitou seu silêncio. Talvez por orgulho, ou talvez porque não sabia como lidar com isso. Mas ela deixou esse espaço existir. À maneira dela, ela te deu permissão.

Seulgi ficou em silêncio, digerindo aquilo.

— E hoje ela me trouxe aqui — Irene completou, com um sussurro. — Talvez tenha sido a forma dela de dizer “eu vi você o tempo todo”, mesmo que nunca tenha dito nada.

— Você acha que foi isso?

— Eu acho que ela sabia que esse lugar era a parte de você que nunca morreu. E ela quis me mostrar isso… porque talvez, lá no fundo, ela soubesse que só eu podia fazer você voltar pra ele por completo.

Seulgi soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.

— Caramba... o que está acontecendo com essa Kang Bada? Será que ela finalmente se lembrou que tem uma filha?

Irene riu junto, se aconchegando mais no peito de Seulgi.

— E por falar em filha… — Irene disse, com um sorriso maroto nos lábios. — Alguém tem sentido a sua falta, perguntado de você o tempo todo…

— É… — Seulgi abaixou o olhar. — Eu devo desculpas a ela.

— Ela entende você. Até aquele momento, não tínhamos como prever, até porque era a Karina tentando tirar uma pedra no sapato.

— Mas não era. Ela estava certa. E eu fui injusta.

— Nossa família já passou por dramas parecidos, Seul… e sinceramente? Chega de tantas lágrimas. Nós merecemos ser felizes.

Yours | SeulreneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora