43. Aconchego.

566 53 28
                                        

O aroma de café recém-passado preenchia os cômodos com suavidade, entrelaçado ao perfume quente da massa frita. A manhã se estendia clara pelas janelas entreabertas, repousando sobre a casa como um véu sereno, desmentindo os dias conturbados que a precederam.

Seulgi cruzou a cozinha com passos comedidos. O braço esquerdo, preso à tipoia escura que lhe atravessava o ombro, denunciava a fragilidade recente. Por baixo da camisa larga, o curativo resguardava o ferimento, impedindo movimentos mais ambiciosos. Ainda assim, ela tentou.

— Eugene, deixe que eu ajudo com alguma coisa…

Sem se virar, Eugene ergueu a colher de pau e apontou com ela para a cadeira encostada à mesa.

— Vai sentar, Seulgi. Hoje, só levanta um copo de suco. Com a mão boa.

Seulgi sorriu, resignada, e se aproximou da mesa. Mal havia se acomodado, uma pequena figura atravessou a porta da cozinha interna.

— TCHANAN!

Karina surgiu com as bochechas salpicadas de farinha e uma rosquinha em cada mão, exibindo-as como troféus recém-conquistados.

— Fui eu que fiz com a vovó! Olha só, mamãe!

O sorriso de Seulgi se abriu sem pressa, como uma resposta natural à presença da filha.

— Você está virando uma pequena chef, hein? Que orgulho da minha artista multifuncional.

Karina se aproximou com entusiasmo, exibindo as rosquinhas com a mesma devoção com que mostraria um quadro. Irene observava de longe, no limiar da porta, os olhos repousando sobre a cena.

— Olha lá, vovô… ela tá toda boba… — comentou Tiffany, com um meio sorriso, cruzando o olhar com Irene, que permanecia parada, atenta ao riso partilhado entre Seulgi e a menina.

Tony ajeitou os óculos, o jornal repousando no colo, o café ainda quente à sua direita.

— E tem é que ficar mesmo. Já perdeu tempo demais longe da própria felicidade. Passou da hora de recuperar.

Tiffany assentiu, cruzando as pernas com leveza.

— Vocês já pensam em se mudar?

— Sim… — respondeu Irene, sem desviar os olhos da cozinha. — Conversamos ontem. Está tudo sendo organizado.

Ela se virou então, encarando Tiffany e Tony com um sorriso tranquilo.

— É curioso… antes parecia que tudo me empurrava pra longe da Seulgi. Agora, tudo me leva de volta pra ela.

Tony riu baixo, o olhar experiente repousando sobre a neta.

— Isso se chama maturidade. E coragem. A vida deu uma nova chance. E você está aceitando. Essa é a metade do caminho.

— E a outra metade é encher o apartamento da Seulgi com quadros da Karina até não sobrar uma parede. — completou Tiffany, divertida.

Irene riu, sentando-se entre os dois.

— Estou ansiosa, mas é diferente. Não é mais sonho. É decisão. Agora eu conheço as dores, os limites, a história. E, mesmo assim, quero tudo.

Tony pousou a mão sobre a dela, firme.

— Então vá. E construa. Porque quando o amor amadurece… ele não precisa de alarde. Ele simplesmente permanece. No lugar certo.

Tiffany virou o rosto discretamente, os olhos ligeiramente marejados.

— Tá vendo, vovô Tony? Você ainda vai parar numa coletânea de frases de almofada.

— Já estou. Só falta me publicarem. — respondeu, com um sorriso satisfeito.

Yours | SeulreneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora