Luísa
Meu coração faltava sair pela boca, entrei em desepero e vi os meninos da contenção passar por mim e outro grupo vir na minha direção.
Gaivota: Coé, vamo te levar lá pra buscar teu menor e vamo te proteger, morô? Presta atenção e dependendo a gente corre e volta pra casa.
Concordei e continuamos descendo e pegando um atalho, a rua estava vazia, já tinha dado o toque de recolher e só tinha traficante na favela.
Gaviota: É o TCP patrão, querem tua cabeça- falou no rádio- tô com tua mulher já e fica na paz ai com a tua cria, qualquer coisa nois te dar o toque.
Marcola: Porra nenhuma caralho, vou descer nessa porra, é minha favela.
Lz: Vai descer caralho nenhum pô, fica na tua goma e toma conta dos teus filhos.
Começou uma discussão no rádio e eu só conseguia pensar nos meus filhos.
Assim que cheguei na entrada e barreira e procurei os meninos com o olhar.
Carlos: Luísa, aqui- ouvi seu grito e virei na direção da voz.
Luísa: Vocês estão bem?- corri na direção deles.
Carlos: Estamos, eu tentei voltar ora casa e quando isso acabar trazer ele, mas me impediram e mandaram eu ficar aqui- falou um pouco embolado e puxando o sotaque dele.
Luísa: Gaivota, me empresta teu rádio.
Gaivota: Vai falar com o patrão?- concordei e ele me entregou- caralho, ó o neguin ali- apontou a arma e atirou.
Ele se afastou e foi atirando, soltei um gritinho pelo susto e o Rhavi se mantia de ouvidos e olhos tampados e fechado.
Luísa: Marcola...o pai do Rhavi não consegue sair da favela, consegue liberar a saida dele ou eu posso subir com ele pra casa?
Marcola: Pode mandar ele ralar, só toma cuidado pra não virar estampa de camisa no meio do caminho pô....coé Lz, atira nessa porra- falou com raiva.
Luísa: Como é que eu vou mandar ele sair da favela depois dessa sua fala?- falei indignada.
Marcola: Vem atormenta minha mente agora não Luísa, faz o teu e depois a gente conversa.
Entreguei o radinho pro Gaviota novamente e mandei um dos meninos que estava fazendo a minha contenção levar o Carlos pro carro dele e liberar a saida do mesmo.
Subi a favela devagar e na maior preocupação, não enrolamos muito e chegamos em casa, olhei na direção da mulher com os cabelos pretos e longos, aparentemente do meu tamanho e ela estava de costas com a Agnes no colo.
Luísa: Marcola- gritei e ela se virou.
: Ele saiu, pediu pra mim ficar aqui com as crianças até ele chegar.
Soltei o ar pelo nariz desacreditada e me sentei na cadeira da mesa de jantar.
Rhavi: Tio Dabiel- choramingou e eu fiz carinho no rosto dele.
Luísa: Você já tomou banho?
Rhavi: Já, o papai deu- concordei e fui pro sofá com ele.
Estava todo mundo aflito e assustado, eu queria arranjar alguma maneira de distrair as crianças.
Luísa: Vamos jogar?
Brayan: Jogar o que?
Luísa: Qualquer joguinho, você sabe ligar o Ps5 do seu pai?
Brayan: Eu sei- falou animado.
Ele foi mexendo e futucando as coisas e eu com um medo enorme de quebrar, pra mim pagar isso aqui é triste.
Ele ligou e escolheu um jogo de tiro. Eles soltava gargalhada e ficavam discutindo ao mesmo tempo.
Ja tinham se passado 4 horas e graças a Deus os tiros cessaram, a menina que estava aqui foi embora, a Agnes dormia igual um anjinho e o Marcos não respondia e nem atendia.
Liguei pra minha sogra e pedi pra ela vir aqui em casa e lassar um olho nas crianças. Troquei de roupa e prendi o cabelo em um rabo de cavalo.
Subi as favela e tinha sangue e alguns corpos no meio do caminho, tava uma nojeira e um horror.
Meu estômago embrulhou, a vontade de vomktar era enorme.
BN: Ta fazendo oque aqui?
Luísa: Cadê o Marcos?- ele engoliu seco- Cadê? Cade o Marcos, BN? Eu quero ver e falar com ele.
Senti um aperto no coração.
BN: Ele está no hospital, levou um tiro na cintura e na perna.
Luísa: E por que vocês não me avisaram?
BN: Pra tu manter a calma e não se preocupar, vai ficar tudo bem.
Luísa: Aonde ele está? Qual hospital?
BN: Postinho.
Sai dali rápido e fui correndo pro postinho, estava entupido, muita gente, empurrei um rapaz e fui pra recepção.
Luísa: Boa tarde
: Boa tarde Luísa- sorriu simpática- é sobre o Marcola?- concordei- ele está em cirurgia, é bem grave a situação dele, perdeu muito sangue.
Meu Deus.
Comecei a chorar e conversa com ela, colhi o máximo de informação e me sentei em uma cadeira vaga que tinha ali.
Fernanda: Cadê ele, cadê o meu 01, ele não pode ter morrido, é verdade?- chegou gritando e toda descabelada.
Pirulito: Abaixa o tom garota, você está num hospital.
Como se não fosse só ela, estava uma falação infernal nesse postinho.
Fernanda: Moça, meu namorado o Marcola, tem notícias dele?- bateu na mesa da recepção.
: Infelizmente a esposa dele não permitiu vazar esse tipo de informação para pessoas que não seja da família.
Fernanda: Eu sou a namorada dele.
Ai que mico.
Esfreguei a mão no rosto e fiquei ali por um bom tempo, depois de séculos chegou um doutor me passar informações sobre ele.
: Não é nada bom, a cirurgia ocorreu bem mas a bala afetou a totalidade e parte do tronco, das pernas e dos órgãos pélvicos, ocorreu uma lesão da medula espinhal e causou pela danificação de vértebras- falou olhando pra um papel- o paciente Marcos, possível está paraplégico.
Abri a boca em choque e tampei voltando a chorar.
: Tudo pode ocorrer bem se ele fizer fisioterapia e exames corretamente, peço licença por que preciso atender outra família.
Ele saiu e eu me sentei desacreditada.
O Marcos não vai conseguir andar.
