A noite caiu devagar sobre a comunidade, como se o céu tivesse cansado também.
A laje ainda estava morna do sol do dia, mas o vento já começava a soprar mais fresco, trazendo o cheiro de comida das casas, mistura de feijão, alho frito e café recém-passado.
Luzes amarelas iam acendendo uma por uma, igual estrela nascendo no chão.
Dentro de casa, o mundo tinha desacelerado.
Rhavi dormia no meu colo, esparramado, a boca levemente aberta, respirando pesado do jeito que só criança cansada consegue.
O cabelo grudado na testa de suor, a mão fechada na minha blusa, como se até dormindo ele precisasse ter certeza que eu ainda estava ali.
Eu fazia carinho devagar nas costas dele, sentindo cada ossinho, cada respiração, cada segundo.
Ser mãe é viver com o coração fora do peito.
E no meu caso, ele ainda corria, gritava, chorava e às vezes me batia sem querer quando o mundo ficava grande demais pra cabeça dele.
Mas ali… ele tava em paz.
Marcola: Ele apagou? -a voz do Marcos veio baixa da porta.
Assenti com a cabeça.
Marcos entrou no quarto como se estivesse pisando em vidro, mesmo sendo um homem grande, cheio de presença.
Ele sempre ficava assim perto do Rhavi, meio cuidadoso demais, como se tivesse medo de fazer algo errado.
Sentou na ponta da cama e ficou olhando ele dormir.
Marcola: Ele se divertiu hoje- perguntou. Respirei fundo.
Luisa: Se divertiu… mas ficou pensativo.
Marcos abaixou a cabeça.
Marcola: Ele falou de mim?
Luisa: Falou.
O silêncio entre a gente pesou, mas não era ruim. Era aquele silêncio cheio de coisa não dita, mas sentida.
Marcola: O que ele falou?
Luisa: Que hoje ele teve dois pais.
Marcos fechou os olhos por um segundo. Doeu nele, eu vi. Mas não era dor de raiva… era dor de medo.
Medo de perder um lugar que ele lutou pra conquistar.
Eu estendi a mão e segurei a dele.
Luisa: Amor não divide. Só aumenta.
Ele apertou meus dedos.
Marcola: Eu só… não quero ser passageiro na vida dele.
Luisa: Então não seja.
Simples assim.
Ele deitou do meu lado, passando o braço pela minha cintura e beijando o topo da cabeça do Rhavi. A gente formava um desenho torto, mas inteiro.
Do outro quarto veio uma gargalhada alta.
Luisa: A Andressa -falei, sorrindo.
Marcos riu pelo nariz.
Marcola: Ela tá diferente.
Luisa: Tá feliz.
E era verdade.
A Andressa, que sempre foi fechada, agora ria alto. Reclamava de enjoo, brigava porque o Bernardo não deixava ela pegar peso, passava a mão na barriga toda hora como se ainda não acreditasse.
Ela tinha medo de ser mãe.
Mas eu conhecia minha irmã.
Ela tinha medo de sentir.
