motel.

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》Onde Minho, um policial militar, salva e esconde Jisung em um motel caro depois de um tiroteio na favela do Cruzeiro, no Rio de Janeiro

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Onde Minho, um policial militar, salva e esconde Jisung em um motel caro depois de um tiroteio na favela do Cruzeiro, no Rio de Janeiro.

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O ventilador no teto fazia mais barulho do que vento

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O ventilador no teto fazia mais barulho do que vento. Girava lento, rangendo como se a qualquer momento fosse despencar e abrir uma cratera no chão do alojamento. Soprava um calor morno, pegajoso, que não refrescava nada — só espalhava o cheiro de suor velho, graxa, cigarro barato e café requentado. As paredes, outrora brancas, estavam descascando em placas, revelando camadas de cimento e abandono. Cartazes de campanhas antidrogas, desbotados e colados com fita, pendiam tortos pelas quinas. “Não abandone seu parceiro.” “Sirva e proteja.” Frases gastas, presas sobre realidades rachadas.

A Delegacia do 12º Batalhão da PM, zona norte do Rio de Janeiro, era um retrato vivo da guerra que nunca acabava. Um prédio apertado, saturado de corpos armados e esperanças frustradas. A entrada ficava entre uma padaria falida e um bar que nunca fechava. Lá dentro, nada funcionava direito — nem as torneiras, nem o rádio, nem o humor dos policiais.  

Lee Minho estava ali. Encostado na parede do fundo, de braços cruzados, olhando pro nada com um cansaço que já fazia parte do rosto. O uniforme já não era novo há muito tempo — o colete tático aberto deixava à mostra uma camiseta cinza escura colada ao corpo, marcada pelo contorno seco dos músculos que ele mal lembrava de onde vieram. O cabelo, sempre cortado rente, tava escovado pra trás, já brilhando de suor. O rosto era sério, impenetrável. Olhos puxados, expressão dura, postura firme. Uma pedra no meio da bagunça.
  
Minho tinha trinta anos, mas parecia mais novo. Era estrangeiro, sim, mas era mais carioca do que muito nascido e criado. Nascido em Busan, criado na Lapa. Era chamado de “Chinês” desde o primeiro dia de farda. Corrigiu nas primeiras semanas. Depois cansou. Agora respondia com silêncio. Era isso ou perder tempo.

Tinha entrado na corporação aos vinte e um. Sobreviveu a cinco tiroteios, dois desabamentos, uma emboscada no Complexo do Alemão e um afogamento numa perseguição no canal de Manguinhos. Colecionava cicatrizes como quem coleciona figurinhas. Uma no ombro esquerdo, outra no abdômen. Nenhuma doía mais do que o peso de ver que tudo continuava igual, mesmo depois de tanto sangue.

swallow - minsungOnde histórias criam vida. Descubra agora