Halloween Circus - Anger

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O carro parou diante da entrada do circo com um gemido baixo do motor e o chiar dos pneus esmagando o barro úmido. O ar ali tinha outro peso — parecia mais denso, imóvel, quase sólido, como se a atmosfera ao redor da lona não pertencesse ao mesmo mundo. As luzes fracas dos faróis tocaram a lona rasgada e revelaram a estrutura corroída, remendada por anos de abandono, como um corpo costurado demais para continuar de pé. Parte do tecido balançava, rasgado, exalando um som rouco e intermitente, o som de um pulmão cansado tentando respirar.

Minho permaneceu por alguns segundos dentro do carro, as mãos firmes no volante, os olhos fixos no contorno da tenda diante dele. O reflexo das lâmpadas do painel tremulava no vidro dos óculos — a rachadura no canto direito atravessava seu campo de visão como uma cicatriz viva, distorcendo parte do mundo em pequenas linhas quebradas. Ainda assim, ele se recusava a trocá-los. Aqueles óculos eram, de algum modo, a lembrança física do que havia acontecido na sessão anterior; e ele precisava daquilo — do peso, da lembrança, da ferida.

Quando saiu do carro, o vento cortou seu rosto como lâminas frias, trazendo consigo o cheiro de maresia misturado a ferrugem. O som da lona batendo encheu o ar com um ritmo irregular, um som metálico e seco, que se confundia com os estalos do ferro enferrujado. Era como se o circo respirasse — inflava, rangia, tremia — e cada vez que exalava, soltava uma baforada úmida e doente.

— Podemos? — perguntou o assistente, saindo do outro lado do carro, a voz firme, mas baixa.

— Sim. — respondeu Minho, sem tirar os olhos da entrada.

Ele ajeitou os óculos no rosto. O vidro trincado deformava a visão, criando reflexos duplicados e sombras sobrepostas. O circo parecia se mover mesmo quando o vento parava, como se algo lá dentro vibrasse em ritmo próprio. Minho respirou fundo, ajustou o casaco, e avançou.

O assistente o seguiu. Seus passos eram pesados, metódicos, mas o som das botas contra o chão de areia soava deslocado, profano — como se invadisse algo sagrado demais para ser tocado. A cortina vermelha à frente oscilava suavemente, o tecido úmido pela condensação, colando-se nas laterais como pele viva.

O primeiro a atravessar foi Minho. O pano frio tocou-lhe o rosto com umidade quase humana. Por um instante, teve a sensação de que algo o sondava, algo que o reconhecia. Era um toque que lembrava dedos invisíveis percorrendo a pele, tentando memorizar sua textura.

Atrás dele, o assistente entrou, e o impacto do ar interno foi imediato — mais pesado, mais quente, com cheiro de pó, maquiagem velha e ferrugem. A areia sob os pés era mais escura que antes, densa, irregular, marcada por pegadas confusas, algumas recentes, outras apagadas, como se algo tivesse sido arrastado.

swallow - minsungOnde histórias criam vida. Descubra agora