Hoje está sendo um dia um pouco mais calmo. Tem sido tão difícil de acontecer. E quando acontece, dura pouco. Talvez só horas. Eu ainda não consegui dormir. O papai me disse que eu não durmo há dois dias, mas eu não quero ainda assim. Não sei se aproveitar é a palavra certa. Mas eu quero passar ao menos um pouco de tempo assim. Eu não vou sair do quarto, mas Ouço menos vozes, menos alucinações. O coração não fica batendo tão rapido e eu me sinto um pouco mais calma. Ainda acontece. Eu ainda ouço. Sinto medo. Mas consigo controlar um pouco. Mesmo que seja só um pouco. Hoje eu consegui conversar um pouco mais com a psicóloga. Ela e o papai ficam felizes quando isso acontece. Por isso eu quero ficar acordada. Mesmo que não me faça bem.
Minha saúde anda bem ruim há tempos devido ao excesso de remédios. Eu quase não saio da cama, não saio do meu quarto e não me alimento bem, mesmo tentando. Creio que passo a maior parte dos dias tendo crises, vendo e ouvindo coisas sem parar. Não importa se não são reais, em algum momento vira real. Sempre vira. Na minha cabeça. Eu passo dias sem dormir, apenas tentando buscar silêncio. Sentindo tanto medo que não consigo explicar. Eu mal tenho noção do tempo. Nem das horas ou semanas. Cada minuto parece uma eternidade. As vozes me perturbam e gritam sem parar. Não importa o quanto eu implore ou grite pra que acabe. Elas não ouvem minha voz. Só gritam mais alto. Mentem pra mim. E dão risada quando eu me machuco.
Eu fico esperando por esses momentos onde minha cabeça fica um pouco mais calma. As vozes ainda me perturbam e eu continuo enxergando o irreal e as lembranças da minha mente, mas eu consigo me controlar e tentar ignorar tudo isso. Nestes momentos mais calmos eu sinto uma sensação melhor. Não é de paz. Nunca foi. Mas talvez um certo alívio. E quando tudo volta, depois de algumas horas, eu passo todo esse tempo de tortura denovo. Semanas. Dias sem dormir. Pesadelos e crises. Toda aquela loucura não para nem por um segundo. Não importa o quanto eu me machuque ou bata minha cabeça pra que elas parem. Nos meus pesadelos elas gritam ainda mais alto. Mesmo assim, quando o dia calmo acontece, eu ainda sinto aquela sensação estranha. Não me parece ser vontade de viver. Mas talvez no fundo seja. Talvez eu ainda queira acreditar que isso pode mudar. Mudar pra melhor. Coisa que nunca aconteceu. Parece bobeira. No fundo é. Eu já me iludi muitas vezes. Muitas. Não é como se fosse possível. Mas eu ainda sinto que quero acreditar. Não é mais esperança. Isso já morreu em mim há muito tempo. Talvez seja só uma tentativa de ilusão boba. Que possa amenizar por um momento pequeno. Toda essa tortura.
Eu já cheguei perto da morte muitas vezes. Mais do que consigo contar. Não sei oque ainda me mantém viva. Eu gostaria muito que ela me enfim me levasse. Eu quero ficar com a minha irmã. Quero que o papai possa descansar. E viver a vida que eu tirei dele. Quero que ele se livre desse monstro.
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Meu Diário
Non-FictionEste é meu diário pessoal. Tento relatar sobre a minha vida como costumava fazer no meu antigo diário físico. Muitas vezes utilizo o gravador de voz para dizer tudo que está na minha mente. Não há coisas boas para se ler neste diário. Peço que tome...
