Viva

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Não tenho usado muito o diário ultimamente. Meus últimos meses foram mais difíceis. Estou presa em uma clínica. Não sei há quanto tempo. Nem como aconteceu. Por mais que seja horrível é algo bom. Pelo bem do papai é melhor eu me afastar. Eu consegui isso. Mas eu queria morrer. Queria há muito tempo. Talvez eu ainda queira. Tudo nesse lugar me assusta. Passei por coisas que me assustaram muito. Pessoas me dão medo. Todas elas. Eu não consigo me conter mesmo sabendo que não vão me fazer mal. Eu não quero estar perto. Nem estar aqui.
Estou fazendo tratamento com choque. É só oque eu sei. Esses dias de tratamento me deixam exausta. Não sei quantas vezes são. Nem quantas foram. Eu não sei. Sinto muito cansaço. Eu não durmo. Por medo. Eu não queria estar aqui. Eu tenho estado mais lúcida. Não sei se é algo bom. São menos remédios. Mais calmantes. E mesmo assim eu não durmo. O medo não deixa. Meu coração não desacelera. Eu não confio em ninguém. Nem mesmo na psicóloga. Não consigo.
Eu bati minha cabeça. Muitas vezes. Me machuquei quando não queria. Eu não tenho controle. Não posso parar isso. Vai acontecer denovo. Eu tive muitas crises nesse lugar. Hoje. Ontem. Me faz muito mal. E eu não consigo parar. Nem conter. Eles insistem que eu saia desse quarto. Mesmo sabendo oque acontece. Eu me machuco sem controle. Eu entendo. Mas não sei até quando posso aguentar. Me vigiam. Eu sinto medo. Não quero estar aqui. Nem em lugar nenhum.
Hoje eu acordei sem ouvir vozes. Consegui dormir um pouco. Sem alucinar. Ou delirar. E sem pesadelos. Minhas mãos pararam de tremer há alguns dias. E agora minha mente parou de me torturar com as vozes. Eu não sei o motivo. Mas em tanto tempo. É algo bom sentir esse alívio. Não é felicidade. Nem paz. Eu não sei que sentimento é esse. Eu não sei. Mas queria que continuasse. Não ouvir todos aqueles gritos. Nem ficar presa naquelas memórias. É algo bom. Eu queria que o medo fosse embora. Queria me acalmar. Me esquecer de tudo. Mas isso já é bom. Tem que ser. Se as vozes voltarem. Eu não vou aguentar. Não quero que me machuquem. Sei como vai acabar. Denovo. Não quero que tudo isso seja inútil. Não sei oque eu quero. Nem oque esperar. Sem as vozes. Não sei se ainda há esperança. Mas eu quero tentar. Enquanto eu sentir forças. Eu quero tentar. Pelo papai. E pela Helena. Sei quantas vezes minha mente já me enganou. Sei que não sou forte. Mas quero tentar. Talvez eu enlouqueça mais aqui dentro. Talvez eu fique presa pra sempre. Meu coração está acelerado. Vou acabar tendo outra crise de pânico. Cedo ou tarde. Eu ainda estou viva. Depois de todo esse tempo. Eu não queria estar. Sei disso. Mas eu preciso tentar. Mesmo sem entender. Ou querer. Nem sentir. Eu não sou uma boa pessoa. Mas quero fazer o bem. Para aqueles que eu amo. É só isso. Sinto que estão me observando. Eu preciso ir.

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