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Capítulo 27 - A briga

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A luz forte do sol cortava as frestas da cortina de linho do quarto principal da fazenda, atingindo em cheio os meus olhos. Tentei me virar para o lado, mas uma pontada violenta na testa me fez soltar um gemido baixo. Minha boca estava seca como a terra do pasto em tempo de estiagem, e a minha cabeça latejava num ritmo doloroso.

O vinho.

As memórias da noite anterior começaram a voltar em flashes desordenados, fazendo meu estômago embrulhar instantaneamente. Lembrei-me do jantar tenso na capital, das provocações da madrasta de Dante e das taças que bebi sem pensar. Mas a lembrança seguinte fez meu sangue sumir do rosto: a estrada escura, a caminhonete parada no meio do matagal, o tecido do meu vestido rasgando e a entrega absoluta e descontrolada nos braços de Dante.

Olhei para o lado. O lençol estava revirado e o lugar dele estava vazio. Na poltrona do canto, os restos do vestido preto de grife apareciam amassados e arruinados, com a fenda rasgada até o quadril, uma prova irrefutável de que tudo aquilo não tinha sido um delírio da bebida.

Enrolei-me no roupão e forcei minhas pernas trêmulas a caminharem até o banheiro. Quando me olhei no espelho, engoli em seco. Meu pescoço e meus ombros carregavam marcas avermelhadas, e meus lábios estavam levemente inchados. A vergonha da perda total de controle me atingiu em cheio, mas, bem no fundo, o calor daquela posse brutal ainda reverberava na minha pele.

Tomei um banho demorado, deixando a água fria aliviar a queimação da ressaca. Quando saí, Marta já estava no quarto, deixando uma bandeja com café forte, torradas e um comprimido para dor sobre a cabeceira.

— Bom dia, menina — Marta disse, com um tom de voz deliberadamente baixo e compreensivo. — O patrão mandou deixar isso aqui. Ele já está de pé faz tempo.

— Obrigada, Marta... — murmurei, sentando-me na beirada da cama e pegando o remédio. — Onde o Dante está?

— Ele está lá embaixo, no escritório dele. E olha... é melhor não chegar muito perto. O homem está com o cão no couro desde que o sol raiou.

Engoli o comprimido com um gole de café preto e forte. Um frio gelado percorreu a minha espinha. Rodrigo. A conversa de Celina no sofá veio nítida à minha mente. No meio daquela loucura na caminhonete, entorpecida pelo álcool e pelo desejo, eu tinha deixado escapar o segredo dela. Eu não lembrava direito das minhas próprias palavras, mas sabia que tinha falado demais.

Vesti um vestido de algodão simples e desci as escadas a passos rápidos, ignorando a leve tontura. Conforme me aproximava do corredor do escritório de Dante, a voz dele ecoava pesada e ríspida através da porta entreaberta. Ele estava no telefone.

— Eu não quero saber de desculpas, seu moleque! — a voz de Dante era um rosnado que fazia as paredes tremerem. — Você achou mesmo que ia usar uma mulher com o meu sobrenome para subir na vida e que eu não ia descobrir? No banco de trás de um carro, Rodrigo?

Prendi a respiração, colando o corpo na parede ao lado da porta. Minhas mãos começaram a suar frio. Ele tinha juntado os pontos do meu delírio alcóolico com as suspeitas que já tinha.

— O seu trabalho na administração acabou no momento em que você deitou ela naquele banco — Dante continuou, a voz fria, cortante como uma navalha. — O meu pai pode ser um frouxo que vive cercado por dondocas na cidade, mas na minha terra sou eu quem dito as regras. Suma da minha propriedade até o meio-dia.

O som do telefone sendo batido com força contra a mesa de mogno ecoou no corredor. Ouvi o barulho da cadeira de couro ranger quando ele se levantou, os passos pesados vindo em direção à porta.

O pânico e a culpa se misturaram dentro de mim. Eu tinha quebrado a pouca confiança que estava construindo com a minha cunhada. Movida por um impulso de desespero, dei um passo à frente e empurrei a porta, entrando no escritório bem no momento em que Dante ia sair.

Rendida ao MonstroHistórias para pegar e não largar. Descubra agora