A porta se abriu devagar, sem que ninguém batesse.
— Milena?
O som daquela voz fez meu estômago despencar e uma onda de repulsa instantânea subiu pelo meu peito. Eu não precisava nem olhar para saber quem era. Igor. Alguém de quem eu já estava completamente saturada e sem paciência após um ano de insistências estúpidas, visitas sem aviso e grude.
Ele colocou o corpo para dentro da minha casa, sem ser convidado, e seus olhos castanhos arregalaram-se imediatamente ao caírem sobre as duas malas grandes paradas no hall de entrada. Depois, ele olhou para mim, parando os olhos no meu vestido branco e no meu cabelo comprido.
— O que é isso? — Igor perguntou, dando um passo à frente, invadindo o meu espaço com aquela audácia irritante que me dava náuseas. — Você está... arrumando malas? Para onde você está indo, Milena? Seus pais não estão aqui, eu vi eles saindo de táxi. Quem deixou essas coisas aqui na entrada?
— Não é da sua conta, Igor — respondi, recuando um passo, sentindo o suor frio da fobia social começar a brotar na minha testa. — O que você está fazendo dentro da minha casa? Quem te deu permissão para entrar?
— Calma, eu vi a porta encostada e achei que estivesse acontecendo alguma coisa — ele justificou, aproximando-se ainda mais, tentando tocar no meu braço com aquele jeito meloso de sempre. — Espera aí... você está de vestido branco, com malas prontas... Você está fugindo? É por isso que você nunca saía de casa? Quem é o cara, Milena? Você conheceu alguém pela internet?
— Sai de perto de mim! — gritei, a voz falhando pelo início de uma crise de ansiedade. — Você não tem o direito de me questionar! Vá embora da minha casa agora, Igor!
— Eu não vou embora e te deixar fazer uma besteira dessas! — ele rebateu, engrossando a voz, tentando se fazer de herói protetor, o que me deu ainda mais nojo. Ele segurou o meu pulso com força. — Me fala a verdade! Quem está te levando? Eu não vou deixar você estragar a sua vida com um desconhecido!
Aí ele começou a me agarrar violentamente e de forma grosseira. Seu rosto se abaixou na altura do meu pescoço e lá ele começou a depositar seus beijos nojentos e melados.
— Diga, mudinha, você se deitou com outro porco imundo? — Me insultou. Seu bafo soprou e eu senti o álcool em seu hálito.
Sua mão que estava na parede desceu até meu seio e o apertou com agressividade e de forma possessiva. Minhas mãos foram para seu peito e comecei a empurrar ele com vigor.
— Me solte, agora! — Minha voz saiu como um soluço, meus olhos começaram a ficar embaçados.
— Eu posso ser melhor que ele, você vai gostar! Seja uma boa menina e fique quieta — me desesperei ainda mais quando escutei o barulho da sua fivela. Eu ia ser usada e ia ficar quieta, minha boca não se movia.
— Solte ela. Agora. — Escutei a voz dele.
O ar sumiu dos meus pulmões. O corpo de Igor foi arrancado de cima do meu em instantes, arremessado contra a parede com uma força tão descomunal que o impacto fez os quadros tremerem. Dante estava ali. O rosto dele não era mais o de um homem; estava vermelho de um ódio cego, os músculos do pescoço saltados e os olhos injetados de sangue, focados no invasor como um predador faminto diante da presa. A cicatriz no seu rosto parecia latejar vermelha, exalando uma promessa de morte.
— Eu vou matá-lo. — O rosnado dele foi baixo, uma vibração gélida que fez minha espinha congelar.
Dante avançou como um monstro implacável. Seu punho gigante começou a descer sem pudor no rosto de Igor, que parecia totalmente aéreo e em choque. O primeiro impacto quebrou os dentes dele; o segundo estraçalhou o seu nariz. Passou pouco tempo até eu perceber que Dante não ia parar. Ele descarregava uma fúria sádica, socando a carne já dilacerada com uma ferocidade assustadora, o sangue espirrando no chão e manchando as botas dele.
Tomada pelo pânico de ver um homem ser transformado em poça de sangue na minha sala, corri em socorro do Igor. Joguei-me contra aquele braço maciço de pedra e o puxei para impedir de depositar outro soco.
— Pare! Você vai matá-lo! — Expliquei, chorando, puxando com toda a minha força, entretanto ele nem se movia com o meu peso.
Na brecha de segundo que eu infelizmente acabei dando ao segurar o braço de Dante, Igor, tossindo sangue e chorando de terror, conseguiu reunir as últimas forças para rolar para o lado e escapar pela porta aberta, correndo desesperado para fora da casa.
Dante sequer olhou para a porta. Ele não se importava com o rato que tinha fugido; sua obsessão estava inteiramente voltada para mim. Ele se levantou lentamente, virando o corpo na minha direção. Ele estava completamente transtornado, a respiração pesada e descontrolada, com a fúria e a raiva brilhando intensamente em seus olhos pretos. Ele deu um passo na minha direção, me encurralando contra a parede de forma possessiva, exalando uma aura esmagadora de perigo.
— Você está defendendo o seu amante?! — A irritação era óbvia na sua voz possessiva e implacável. Seus olhos me acusavam, me revistando de cima a baixo como se quisessem arrancar a verdade da minha alma.
— Eu... eu não... — Levei minha mão em choque até a boca, o peito subindo e descendo
Fiquei completamente perplexa. Na minha inocência e isolamento, eu nem sabia direito o que aquela insinuação significava, mas a simples ideia de trair o meu próprio noivo — o homem por quem esperei um ano inteiro — me enjoava profundamente. Tentei negar, tentei explicar o ataque, mas Dante estava incapaz de escutar. A mente dele tinha sido nublada pelo ciúme doentio, pela possessividade sombria de um homem que não aceitava que ninguém tocasse no que era dele. Sem abrir a boca para me deixar dizer mais nada, ele desferiu a frase como uma sentença de posse cruel:
— Então esse é o cara para quem você abriu as pernas no lugar do seu noivo?
Antes que eu pudesse responder ou derramar mais uma lágrima, ele avançou. Sua mão fechou no meu pulso como uma algema de ferro, apertando até doer. Ele me puxou com uma ferocidade assustadora, ignorando meus protestos, me levando mesmo nos tropeços até o carro. Meus pés arrastavam no asfalto enquanto ele me arrastava sem qualquer delicadeza. Dante abriu a porta do passageiro e me jogou no banco com brutalidade, batendo a porta logo em seguida.
Pelo vidro embaçado, vi seus passos largos e possessivos voltarem para pegar as malas que estavam na porta da frente. Ele as jogou de qualquer jeito no porta-malas.
Sem me deixar despedir dos meus pais, sem me permitir limpar o sangue de Igor que tinha respingado no meu vestido branco, ele entrou no carro. Seus olhos não se desviaram da estrada, os nós dos dedos brancos de tanta força no volante. Ele deu a partida e pisou fundo no acelerador, fazendo os pneus cantarem. Dante tinha decidido partir de vez para o seu território, o local isolado de onde eu nunca mais teria permissão para fugir.
Eu agora pertencia ao monstro.
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Rendida ao Monstro
RomanceEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
