Olho para a tela apagada da TV. O silêncio na sala é uma exigência inegociável por causa da dor de cabeça do papai; mamãe sempre repete que não podemos, sob hipótese alguma, deixá-lo bravo. Sentada no chão, sinto o corpo arder pelo incômodo de estar há tanto tempo na mesma posição, ao lado do sofá.
Aperto contra o peito a boneca de pano que a mamãe costurou para mim. Ela é o meu único refúgio, a única coisa que me faz sentir minimamente segura.
— Menina, vem aqui — a voz do meu pai corta o silêncio.
Volto meus olhos para ele. Está jogado no estofado, segurando uma garrafa de cerveja com uma frouxidão calculada.
— Estou indo, pai — obedeço de imediato.
Levanto-me e vou em sua direção, ajoelhando-me submissa em frente ao sofá onde ele impera. Meu pai é um homem extremamente tradicional. E rígido.
— Como estão as suas notas? — ele questiona, repetindo o interrogatório de sempre. Para mim, aquela cobrança era a única prova visual de que ele se importava comigo.
— A professora Débora disse que minhas notas subiram para 9,4. Não é o máximo, pai? — rebato com uma ponta de ansiedade, buscando sua aprovação.
Débora é minha professora particular. Ela me dá aulas em casa há quase dez anos; eu nunca tive permissão para frequentar uma escola normal.
— Na próxima, eu quero 100% — avisa, cravando os olhos nos meus.
Concordo com a cabeça e desvio o olhar para o chão. Só três pessoas no mundo tinham permissão para me olhar nos olhos: minha mãe, meu pai e a minha professora. Sempre tive uma severa dificuldade com contato visual. Minha mãe justifica dizendo que é apenas o meu medo crônico da população lá fora.
— Mas você melhorou bastante — ele acrescenta.
Ergo os olhos, engolindo a migalha de elogio com uma felicidade quase desesperada. Naquele momento, me convenço de que o isolamento e as horas exaustivas de estudo valeram a pena.
— Obrigada, pai.
Agradeço com um sorriso largo. Meu pai está orgulhoso, eu sei. Ele não precisa verbalizar; consigo sentir o peso do seu olhar controlador sobre mim.
Ele é um homem alto, sombrio e sério, que raramente esboça qualquer reação, por isso qualquer migalha de afeto ganha a importância de um evento. Compartilhamos os mesmos olhos verde-escuros — uma das muitas características que herdei dele. Eu era, em tudo, a sua cópia exata.
— O jantar está pronto — anuncia minha mãe ao entrar na sala.
Ela passa a mão pelos cabelos castanho-escuros, levemente ondulados nas pontas — a única característica que herdei dela.
Levanto-me rápido para ajudá-la a organizar a mesa, e ela aceita o auxílio em silêncio. Sento-me no meu lugar habitual e espero que ela nos sirva.
Para aquela noite, ela preparou o meu prato favorito: contrafilé à parmegiana com batata frita. Olho para a refeição à minha frente, inebriada pelo aroma.
Ouço o som do meu pai se acomodando na cadeira ao lado, mas permaneço estática. Pego os talheres e começo a lutar contra a carne, que parece dura e difícil demais para cortar.
— Pai, pode cortar para mim, por favor? — peço, empurrando o prato na direção dele.
Ele o puxa para si, habituado ao meu capricho dependente. Sorrio enquanto assisto à precisão quase cirúrgica com que ele divide o bife em pedaços perfeitamente iguais.
— Milena, você precisa aprender a fazer as coisas sozinha. Daqui a pouco estará morando por conta própria — repreende minha mãe, que sempre desaprovou a forma como meu pai alimentava a minha dependência.
— Deixe a menina, não é nada demais — ele me defende, devolvendo o prato pronto para mim.
Estou completando dezessete anos hoje. Para ser sincera, sempre odiei o dia do meu aniversário. Por cair exatamente no Carnaval, as ruas se transformam em um caos barulhento e profano, e meu pai nunca nos permite quebrar o isolamento para jantar fora.
— Está bom, querida? — minha mãe pergunta, buscando validação.
— Está uma delícia, mamãe — elogio com um aceno mecânico.
Ela sorri, orgulhosa do próprio território, imersa em si mesma.
Terminamos a refeição conversando sobre o meu futuro planejado. Meu desejo sempre foi cursar administração, uma carreira que me parecia previsível e controlada. Se não desse certo, a alternativa claustrofóbica seria trabalhar na biblioteca trancada da minha mãe, o que também não me pareceria ruim, já que fui moldada para amar aquele lugar.
— Ah, não... Eu esqueci o bolo na biblioteca — minha mãe lamenta, levando as mãos à cabeça, frustrada com a própria falha.
— Não precisa de bolo, mãe — asseguro, baixando os olhos para as minhas próprias mãos pousadas no colo.
— Bobagem. Eu vou buscar o bolo — meu pai decreta, levantando-se da mesa. Sua palavra é a lei.
— Sério? Posso ir com o senhor? — ofereço-me, impulsionada por uma rara urgência de ver a rua.
Ele apenas consente com a cabeça, um comando silencioso. Pulo da cadeira e corro para calçar os sapatos.
— Não demorem, vou ficar esperando por vocês — avisa minha mãe, ajeitando de forma possessiva uma mecha do meu cabelo que estava preso.
— Está bem, querida. Voltamos logo — ele responde, prendendo meus dedos nos seus, puxando-me para o mundo exterior.
Acenamos de longe para ela, que permanece sob o batente, nos vigiando como uma sentinela. A rua está tomada pelo tumulto hostil do Carnaval; jovens barulhentos, suados e embriagados passam por nós a todo instante, quebrando a nossa bolha de isolamento. Caminhamos em direção à biblioteca, um trajeto tenso de aproximadamente vinte minutos.
Meu pai destranca a porta da loja escura e recolhe a caixa sobre o balcão, cuidadosamente embrulhada em papel cor-de-rosa. Enquanto ele tranca a porta novamente, começo a insistir para que me deixe espiar o que há ali dentro, testando os limites do seu humor.
— Papai, só uma olhadinha, por favor — insisto, juntando as mãos em um gesto de súplica.
— Não vou repetir, Milena. Vamos abrir em ca...
O aviso dele é interrompido abruptamente quando um grupo de três rapazes esbarra violentamente contra o seu corpo. O impacto quebra a distância segura.
Instintivamente, recuo um passo, escondendo-me nas sombras das costas do meu pai enquanto o odor acre e sufocante de álcool e ameaça invade minhas narinas.
Um calafrio agudo percorre minha espinha, trazendo consigo o arrependimento amargo e tardio de ter cruzado os limites de casa.
Próximo capítulo na terça!!
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Rendida ao Monstro
RomanceEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
