Duas semanas haviam se passado desde o dia em que o escritório se tornou o meu novo refúgio e o centro das minhas funções na fazenda. Nesse meio tempo, a distância fria e o medo paralisante que antes ditavam os meus dias ao lado de Dante começaram a ceder espaço para uma aproximação bizarra, intensa e inevitável. Com a demissão das antigas empregadas, eu havia assumido de vez a responsabilidade de preparar as nossas refeições.
Naquela manhã, enquanto eu terminava de organizar o balcão da cozinha após o café, Dante entrou no cômodo com passos pesados. Ele parou bem atrás de mim, perto o suficiente para que eu sentisse o calor do seu corpo e o perfume amadeirado misturado ao cheiro de café forte.
— A comida estava boa — ele murmurou, a voz grave vibrando perto da minha nuca. — Você leva jeito para isso, garotinha.
Senti minhas bochechas esquentarem levemente e me virei, encontrando aqueles olhos pretos e intensos me avaliando de cima a baixo.
— Obrigada — respondi com a voz mansa, sustentando o olhar por alguns segundos antes de desviar. — Fico feliz que tenha gostado. É bom ter algo para ocupar a mente enquanto os relatórios não chegam.
— Você não vai ficar entediada por muito tempo. daqui uns dias, o dia vai ser longo com os capatazes — ele avisou, estendendo a mão massiva para tocar uma mecha do meu cabelo, enrolando-a no dedo com uma possessividade calma. — E os seus livros devem chegar hoje à tarde. Dei ordens para descarregarem direto no escritório.
— Todos eles? — perguntei, sentindo uma ponta de ansiedade legítima.
— Todos. Quero ver essa estante cheia, Milena. E quero você sentada na sua mesa, onde eu possa te vigiar enquanto trabalho.
Ele me deu um último olhar ousado, quente e carregado de promessas antes de se afastar e sair em direção ao pátio. Aquela intensidade me perseguiu o dia todo. A nova rotina na administração da fazenda exigia muito mais do que apenas conferir relatórios de carga. Minha mesa já estava perfeitamente instalada ao lado da dele no imenso escritório de mogno, mas as grandes prateleiras de madeira que iam até o teto ainda pareciam vazias demais.
Depois do almoço, o entregador finalmente descarregou as caixas. Quem provavelmente havia escolhido os títulos fora a própria bibliotecária da cidade, a quem Dante havia dado ordens para enviar uma boa seleção de literatura. Peguei os primeiros volumes com um sorriso genuíno e feliz no rosto, maravilhada com as edições de fantasia e romances clássicos. No entanto, ao puxar o fundo de um dos pacotes, meus olhos travaram na capa de um homem musculoso e sem camisa, em uma pose de pura luxúria. Era uma trilogia de romances eróticos sombrios.
Antes de ser pega no flagra, escutei os passos pesados de Dante ecoando no corredor, voltando em direção ao escritório. Em um reflexo rápido, movida pelo pânico e pela vergonha, enfiei a trilogia erótica no fundo da minha gaveta pessoal e fechei-a devagar.
Quando ele entrou, eu já estava de pé, fingindo naturalidade enquanto organizava os livros de fantasia e os clássicos nas prateleiras.
— Chegaram todos? — Dante perguntou, parando no meio do cômodo, ajeitando o coldre de couro no peito.
— Sim, a maioria é de romance clássico e fantasia. São lindos — respondi, tentando manter a voz firme.
Dante olhou de relance para as caixas abertas e para as estantes, avaliando o ambiente.
— Bom. Arrume tudo do seu jeito — ele disse apenas, parecendo satisfeito por não ver nada de mais ali, antes de sentar na própria cadeira e voltar aos papéis.
Após aquele dia, o meu tempo livre ganhou um novo propósito. Eu passei a devorar aqueles livros escondidos em todos os momentos em que ficava sozinha na casa. Página por página, capítulo por capítulo, eu finalmente comecei a entender o que realmente significava o sexo e a intimidade de um casamento. Eu ficava completamente fascinada, com o coração disparado, ao ler as descrições detalhadas de sexo oral e das dedadas profundas que as personagens femininas levavam dos seus homens. Toda vez que fechava o livro, eu me sentia quente, vermelha e com um formigamento bizarro entre as pernas que eu mal conseguia controlar.
.....
Até que o pior dia chegou: o dia da reunião mensal.
Era uma reunião exaustiva que acontecia todo mês. Os capatazes e os principais homens se reuniram na sala de estar do andar de baixo para discutir rotas, segurança e finanças com Dante. Depois de três longas horas sentada ali ao lado dele, anotando os termos necessários, eu já estava completamente entediada, cansada e pronta para sair daquela sala sufocante. O estopim foi quando os homens começaram a relaxar a postura e piadas pesadas e sacanagens explicitas começaram a sair da boca de um dos caras da fronteira.
Desconfortável, olhei imediatamente para Dante no topo da mesa, buscando socorro com o olhar. Ele percebeu o meu incômodo na mesma hora, fixando os olhos em mim por um segundo antes de dar um aceno discreto com a cabeça, indicando que eu estava liberada da mesa.
Praticamente fugi dali. Subi as escadas correndo e me tranquei no escritório, buscando o silêncio daquele cômodo e o conforto do meu romance quente. Sentei-me na cadeira, puxei o livro da gaveta e comecei a ler exatamente de onde tinha parado.
Eu estava tão imersa na leitura, justamente na cena em que os personagens se tocavam sexualmente com os dedos, sentindo o meu próprio corpo esquentar sob o tecido do vestido, que o mundo ao redor sumiu.
— Que porra é essa? — a voz de trovão de Dante ecoou da porta, fazendo-me dar um sobressalto.
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Rendida ao Monstro
Storie d'amoreEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
