Capítulo 16 - Observando

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Dante

Duas semanas. Esse foi o tempo exato que levou para aquela garotinha virar a rotina da minha casa e do meu escritório de cabeça para baixo.

Depois que mandei os antigos empregados embora para garantir que ninguém ficasse de conversinha ou fizesse perguntas demais sobre os meus negócios, Milena assumiu a cozinha. Eu não esperava nada dela além de obediência e relatórios bem revisados, mas ver aquela cena toda manhã — ela circulando pela cozinha, organizando o balcão com aquela postura delicada — fazia meu sangue esquentar mais cedo do que o normal. Cozinhar para mim parecia um ritual silencioso entre nós. E a comida era boa, porra. Muito melhor do que os cascos velhos que trabalhavam aqui antes entregavam.

Naquela manhã, fiz questão de entrar na cozinha com passos firmes, parando bem atrás dela. Gosto de ver como o corpo dela tensiona, como ela fica miúda e vulnerável quando eu chego perto o suficiente para fazê-la sentir meu calor.

— A comida estava boa — murmurei perto da nuca dela, observando os pelos do seu pescoço se arrepiarem imediatamente. — Você leva jeito para isso, garotinha.

Quando ela se virou, as bochechas estavam vermelhas. Um prato cheio para mim. Seus olhos sustentaram os meus por alguns segundos antes de desviarem, tímidos, do jeito que eu gostava.

— Obrigada. Fico feliz que tenha gostado. É bom ter algo para ocupar a mente enquanto os relatórios não chegam — ela respondeu com aquela voz mansa que testava a minha paciência todas as manhãs.

— Você não vai ficar entediada por muito tempo. daqui uns dias, o dia vai ser longo com os capatazes — avisei, estendendo a mão para puxar uma mecha do seu cabelo. Enrolei os fios escuros no meu dedo, sentindo a textura macia, deixando claro quem mandava ali. — E os seus livros devem chegar hoje à tarde. Dei ordens para descarregarem direto no escritório.

— Todos eles? — Os olhos dela brilharam com uma ansiedade legítima.

— Todos. Quero ver essa estante cheia, Milena. E quero você sentada na sua mesa, onde eu possa te vigiar enquanto trabalho.

Dei o meu aviso e saí para o pátio. Eu queria ela exatamente ali, sob o meu campo de visão, trancada no meu território.

Mais tarde, os livros chegaram. Eu mesmo tinha mandado a bibliotecária da cidade selecionar uma caralhada de romances e fantasias para mantê-la ocupada e longe de problemas. Quando entrei no escritório no meio da tarde, ajeitando o coldre no peito, vi que ela já estava empilhando os volumes nas prateleiras de mogno.

— Chegaram todos? — perguntei, sondando o ambiente.

— Sim, a maioria é de romance clássico e fantasia. São lindos — ela respondeu, tentando manter a voz firme, mas percebi um leve tremor nas mãos dela.

Olhei de relance para as caixas. Parecia tudo em ordem. Nenhuma ameaça, nenhum papel fora do lugar.

— Bom. Arrume tudo do seu jeito — ordenei, sentando-me na minha cadeira.

O que eu não sabia era que a garotinha estava guardando um segredo naquela gaveta trancada.

Nos dias seguintes, comecei a notar a mudança. Milena ficava avoada, com os olhos fixos nas páginas quando achava que eu não estava olhando. À mesa, durante o jantar, peguei seus olhos castanhos me avaliando de um jeito diferente, mais pesado, descendo pelo meu peito e pelos meus braços. Ela ficava vermelha do nada, respirando mais rápido. Eu sabia que tinha algo despertando naquela cabecinha, só não tinha descoberto o gatilho ainda.

Até o dia da reunião mensal com a minha cúpula.

Três horas de reunião com os capatazes e os caras da fronteira na sala de estar. O clima estava denso, discutindo carregamentos, rotas e dinheiro. Milena estava sentada ao meu lado, anotando o que era necessário, mas eu conseguia sentir o tédio e o cansaço exalando dela. Quando o assunto principal terminou e os meus homens relaxaram a postura, o papo virou baixaria. Piadas pesadas e sacanagens de prostíbulo começaram a voar pela mesa.

Rendida ao MonstroHistórias para pegar e não largar. Descubra agora