Dante
O galope pesado do cavalo cortava o pasto alto da invernada, mas nem o vento frio no meu rosto era capaz de apagar o calor da raiva que queimava no meu peito. A madeira estalada do portal do escritório ainda ecoava na minha memória, assim como o nó dos meus dedos, esfolados e latejando, me lembrando do soco.
Inferno.
Eu apertei as rédeas de couro com tanta força que os meus pulsos doeram. A imagem de Milena encolhida contra a parede, com aqueles olhos enormes transbordando lágrimas e o corpo pequeno tremendo de pavor, não saía da minha cabeça. E isso me irritava mais do que a própria audácia dela. O sobressalto que ela deu quando o meu soco bateu na madeira... a vergonha estampada no rosto dela quando lembrei da noite passada...
Um nó incômodo se apertou na minha garganta. Eu tinha pegado pesado. Fui bruto, nojento, um bicho. Mas que diabo ela esperava? Acha que só porque eu a rasguei no banco daquela caminhonete, porque me perdi completamente no corpo dela no meio do nada, agora virou minha dona? Acha que tem voz para ditar como governo a minha terra e a minha família?
"Meu pai deixou a Patrícia pisar no pescoço dele até virar um frouxo na capital", pensei, cravando os calcanhares no cavalo e forçando o galope. "Comigo não. Nenhuma mulher manda no que é meu."
Eu não ia me render. Não ia pedir desculpas. Um Medeiros não abaixa a cabeça no próprio domínio, mas eu sabia dos meus limites: se olhasse para a cara de coitada dela de novo enquanto a raiva estivesse quente, acabaria machucando a garota de verdade. E isso eu não me perdoaria. A solução era o silêncio. A calmaria fria que faz o sangue congelar.
Voltei para a casa quando o sol já se escondia atrás das serras, tingindo o céu de um laranja escuro. Deixei o cavalo no galpão, passei pelos fundos sem fazer barulho e subi direto para o quarto. Não queria cruzar com ela no corredor.
Tomei um banho demorado, deixando a água fervendo queimar minhas costas e lavar o suor e a sujeira do dia. Vesti uma calça limpa, uma camisa escura e desci para a sala de jantar. Marta estava terminando de colocar os talheres sobre a mesa.
— Avise a Milena que o jantar está na mesa — ordenei, a voz baixa, firme, sem dar margem para conversas.
— O jantar já tá servido, mas a menina... ela nem saiu do quarto o dia todo, patrão — Marta comentou, apreensiva, mantendo a cabeça baixa.
— Mandei avisar, Marta. Não pedi relatório.
Minutos depois, ouvi os passos trêmulos dela descendo a escada. Milena entrou na sala de jantar como quem pisa em um terreno minado. Usava um vestido simples, os olhos ainda levemente inchados e a postura encolhida. Ela nem sequer se atreveu a olhar diretamente nos meus olhos. Sentou-se na cadeira oposta, mantendo a maior distância possível de mim.
Acomodei-me na cabeceira, servindo a comida em silêncio. O único som na sala era o roçar dos talheres na porcelana. O ar parecia pesado demais para respirar.
— O rapaz da administração... — comecei, mantendo a voz pausada, gélida, cortando o silêncio sem erguer o tom. — O Rodrigo já juntou as coisas dele e foi embora. O assunto está encerrado nesta casa.
Milena continuou de olhos fixos no prato, a mão apertando o garfo com tanta força que as juntas dos dedos ficaram brancas.
— Ele... ele foi embora sem ver a Celina? — a voz dela saiu entrecortada, num fio fraco de coragem.
— Ele foi embora como o funcionário demitido que é — fechei o cerco, sem piscar. — E se tiver o mínimo de juízo, não aparece mais.
— E a Celina? — ela arriscou, o tom gelado, sem me encarar.
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Rendida ao Monstro
RomanceEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
