O sol da manhã entrou pelas frestas da cortina do quarto, banhando o ambiente com uma luz mansa que contrastava com o caos da noite anterior. Acordei sentindo o braço pesado e musculoso de Dante prendendo minha cintura contra o peito dele, colando minhas costas ao seu tronco quente. Meu corpo inteiro estava dolorido, uma sensação densa e presente, mas muito menos desconfortável do que na nossa primeira vez. Agora, era o eco de um prazer que eu mesma havia cavado debaixo daquela mesa.
Mas, junto com a claridade, veio a memória. Eu te amo. Eu tinha dito com todas as letras, entregando meu coração em um fio de voz. E ele? Ele havia trincado os dentes e respondido com a força do próprio quadril, usando o corpo para calar a minha alma. A cobrança velada pesava no meu peito.
Afastei o braço dele devagar para não acordá-lo. Fui até o closet e me arrumei de modo leve, escolhendo um cropped branco e uma saia rosa rodada que ia até a pandurilha, bem feminina e fluida. Como o atrito do tecido com a pele ainda me lembrava do castigo do cowboy, tomei a decisão ousada de não colocar calcinha.
Ao descer as escadas, congelei no último degrau. O cheiro do molho de tomate e do queijo queimado ainda exalava no ar, misturado com o aroma de produto de limpeza. Marta, uma nova funcionária contratada para ajudar a limpar a casa principal, estava de joelhos na cozinha, esfregando o chão que nós havíamos batizado.
O constrangimento subiu pelas minhas bochechas como um incêndio.
— Bom dia, dona Milena — Marta cumprimentou, sem levantar os olhos do chão. — Acho que houve um... acidente com o jantar ontem. Já estou resolvendo tudo.
— Bom dia, Marta... Obrigada. Desculpe a bagunça — gaguejei, segurando a barra da saia rosa.
Evitando a cozinha a todo custo, dei meia-volta e caminhei direto para o escritório. apos uns minutos, Dante chegou. Vestia uma camisa jeans escura com as mangas dobradas até os cotovelos, os cabelos levemente úmidos do banho matinal, compenetrado diante de um monte de relatórios de exportação de gado.
— Bom dia, pequena — ele disse, a voz grossa vibrando no silêncio do cômodo — Dormiu bem?
— Bom dia — respondi, cruzando as pernas por baixo da saia rodada. — Dormi sim. Apesar de um certo cowboy ter me deixado moída.
Dante soltou um riso curto, o canto dos lábios subindo.
— Você procurou cada milímetro daquele cansaço, Milena.
E assim trabalhamos em silencio, o relógio de parede badalou meio-dia antes que percebêssemos. As horas haviam passado em um silêncio concentrado. Dante largou a caneta tática sobre a mesa, esticou os braços largos e me encarou.
— Vamos almoçar? Tem o restante da lasanha que parece que você guardou antes da bagunça.
Descemos juntos. Comer aquela lasanha na mesma cozinha que agora estava impecavelmente limpa foi uma tortura mental. Eu olhava para a mesa de madeira e conseguia ver o fantasma do meu vestido vermelho jogado ali. Dante comia em silêncio, mas seus olhos me vigiavam a cada garfada, como se soubesse que eu estava sem nada por baixo da saia rosa.
Terminei meu prato, empurrei-o para o lado e decidi cobrar a promessa.
— Dante... você disse que eu podia ligar para os meus pais hoje.
Ele não hesitou. Levantou-se, foi até o aparador da sala e voltou com um aparelho celular moderno, preto e pesado. Ele mesmo discou o número da casa dos meus pais e colocou no viva-voz sobre a mesa, cruzando os braços e sentando-se ao meu lado, a postura atenta de um falcão.
No terceiro toque, a voz doce e cansada da minha mãe ecoou.
— Alô?
— Mãe! Sou eu, a Milena! — meu coração disparou, uma alegria infantil me inundando.
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Rendida ao Monstro
RomanceEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
