Capitulo 20 - Uma visita

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— Suba, Milena. Agora.

A ordem de Dante não foi um grito, mas a calmaria gelada na voz dele me deu mais arrepios do que qualquer explosão. Seus olhos negros não saíam do homem grisalho parado na varanda, mas a mão dele encontrou a minha na sala, apertando meus dedos com uma firmeza quase dolorosa. Uma promessa silenciosa de proteção.

— Mas... — tentei argumentar, o coração batendo na garganta.

— Para o quarto, minha pequena. Por favor. Fica lá em cima até eu resolver isso — ele pediu, e a palavra "por favor", vinda de um homem como ele, era o mais próximo que Dante chegava de implorar.

Segurei o tecido leve do meu vestido solto e obedeci. Subi os degraus o mais rápido que minhas pernas doloridas permitiram, sentindo a ardência física da noite anterior protestar a cada movimento. Assim que entrei no quarto principal, tranquei a porta e me encostei nela, trazendo a boneca Lili contra o peito.

Não demorou dois minutos para a confusão começar. Eu soube que eles tinham subido quando o som da porta do escritório batendo ecoou pelo corredor, seguido quase imediatamente pelo início do inferno.

O silêncio da fazenda foi estraçalhado por uma gritaria ensurdecedora vinda de lá de dentro. A voz grave de Dante rugia pelas paredes de madeira, respondida pelo tom pausado, firme e arrogante do pai. Em seguida, veio o barulho estrepitoso de algo pesado se quebrando — o som inconfundível de cerâmica estourando contra o chão. Um dos vasos decorativos.

Apertei os olhos, abraçando Lili com mais força, e bufei, revirando os olhos para o teto.

— Que pavio curto, meu Deus... — reclamei sozinha, a voz saindo num sussurro indignado. —  Se ele quebrar a casa inteira cada vez que tiver uma briga, eu vou passar o resto da vida recolhendo caco. Que temperamento...

Mais um estrondo ecoou, seguido pelo som de papéis ou livros sendo jogados. A minha curiosidade, que já era grande, virou uma coceira insuportável. Dante era meu marido agora, e eu precisava saber o que estava acontecendo.

Destranquei a porta com o maior cuidado do mundo. Saí em bicos de pés pelo corredor do segundo andar, o vestido solto roçando suavemente nas minhas coxas doloridas. Avancei até o corredor que dava para o escritório de mogno. Colei as costas na parede, perto da fresta da porta, tentando captar os motivos daquela guerra verbal.

— ...você é o único herdeiro daquela porra de império, Dante! — a voz do velho exalava uma autoridade fria. — Eu não construí tudo na capital para ver meu sangue virar a cara e se esconder no meio do gado e da poeira da fronteira! Você vai assumir os negócios!

— Eu já disse que não vou voltar! — Dante berrou de volta, a voz vibrando de ódio. — Eu montei a minha vida aqui, eu comando a fronteira do meu jeito. Ponha os seus outros cães para gerenciar a capital, porque eu não herdo os seus negócios por nada nesse mundo!

— Você não tem escolha... — o velho rebateu, o tom de voz descendo de nível, tornando-se uma ameaça velada. — Se quiser manter essa sua paz de fachada, nós temos um acordo a cumprir. Você vai sentar à minha mesa. Um jantar de negócios na casa da capital na próxima semana.

. A conversa pareceu minguar para sussurros tensos e, antes que eu pudesse recuar, a maçaneta da porta do escritório girou com força. Dei um salto para trás, mas minhas pernas pesadas não me deixaram ir longe.

A porta se abriu. O velho emergiu do escritório, a bengala com empunhadura de prata batendo firme no chão. Ele parou no corredor instantaneamente assim que me viu ali, estática.

Seus olhos frios, da mesmíssima cor dos de Dante, desceram pelo meu corpo. Ele reparou na forma como eu apoiava o peso levemente em uma das pernas para aliviar o incômodo, notou o vestido solto e, principalmente, fixou o olhar na constelação de chupões e marcas roxas que subiam pelo meu pescoço e colo. Um sorriso amargo, carregado de um desdém venomoso, brotou nos lábios do patriarca.

Rendida ao MonstroHistórias para pegar e não largar. Descubra agora