— Presta atenção, velhote — esbravejou o homem que parecia liderar o grupo. Ele era alto, com os braços cobertos por tatuagens escuras que reluziam sob os postes. Os outros dois se fecharam ao redor, concordando com um aceno silencioso.
Meu pai, tentando evitar o pior, simplesmente os ignorou, firmando o passo para tentar passar pelo bloqueio.
— Está surdo, seu velho idiota? Acha que é quem para dar as costas para a gente? — o líder cuspiu as palavras, estreitando a distância.
O tom de voz dele me fez encolher. Podia sentir meu coração martelando contra as costelas, o ar sumindo dos pulmões. Eu odiava o Carnaval, odiava a rua. Minha fobia social transformava toda aquela gente em monstros gigantescos. Só queria a segurança do meu quarto.
— Ele está debochando, chefe — um dos capangas provocou, cruzando os braços, bloqueando de vez o caminho do meu pai.
— Velho folgado merece uma lição para aprender a respeitar quem manda aqui — o líder zombou, a promessa de violência nítida em sua voz.
Senti os pelos do meu corpo se arrepiarem. Meus dedos se fecharam com tanta força na parte de trás da camisa do meu pai que o tecido quase rasgou. Meu corpo estava entrando em choque.
— Por favor... não machuquem o meu pai... — supliquei.
A voz saiu fraca, um sussurro desesperado, mas o suficiente para que eles ouvissem. No segundo em que as palavras deixaram minha boca, uma onda de náusea me atingiu. Eu havia quebrado a regra de ouro do meu próprio pânico: me tornei o centro das atenções. O erro foi instantâneo, e todos os olhares se cravaram em mim como agulhas.
— Olha só o que temos escondido aqui. Que gracinha — o líder sorriu, uma expressão cruel que fez minha mente implorar pelo isolamento de casa. Ele se inclinou na minha altura. — A gente não vai machucar ele, boneca. Só vamos bater um papinho.
Meu pai deu um passo lateral, cortando o contato visual dele comigo e me jogando para trás de seu corpo. Foi o estopim. O líder fez um sinal sutil com a cabeça. Os outros dois avançaram contra o meu pai de uma só vez, imobilizando seus braços. Meu pai tentou se debater selvagemente, e a caixa de papel rosa escorregou de suas mãos, estourando no chão do asfalto. Soltei um grito agudo, horrorizada.
— Soltem-me! Se encostarem um dedo nela, eu mato vocês! — meu pai rugiu, lutando contra o peso dos dois homens.
Tentei focar nele, mas minha visão vacilou quando senti os dedos ásperos do líder segurarem o meu queixo, forçando meu rosto para cima. O pânico paralisou meus músculos; eu não conseguia respirar, não conseguia raciocinar com estranhos me tocando.
— Quantos anos você tem, menininha? — ele perguntou, o hálito de álcool inundando meus sentidos.
Recuei um passo, alerta, e o aperto em meu rosto cedeu. Suspirei, mas permaneci em silêncio, o pânico social travando minha garganta por completo.
— Não vai responder? Ótimo — ele desdenhou da minha mudez.
Com um novo aceno dele, os capangas começaram a desferir os primeiros golpes contra o meu pai. O som do impacto da carne contra o corpo dele me quebrou por dentro.
— Para, por favor! Para! — implorei, as lágrimas finalmente vencendo a barreira e queimando meus olhos.
Meu pai já estava de joelhos, o rosto machucado, emitindo sons abafados de dor. Ver aquilo parecia arrancar um pedaço do meu peito.
— Eu tenho dezessete! Faço dezessete hoje! — gritei a resposta anterior em puro desespero, expondo-me apenas para fazê-los parar.
— Que coisinha adorável... Você é tão miúda que nem parece — ele riu, divertido com a minha humilhação pública.
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Rendida ao Monstro
Storie d'amoreEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
