Ela cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
O calendário na parede do meu quarto não tinha mais nenhum quadrado em branco. O grande dia havia chegado. Acordei antes do sol nascer, impulsionada por uma eletricidade que corria sob a minha pele, me fazendo pular da cama sem qualquer traço de sono. Hoje eu completava dezoito anos. Hoje, o contrato de sangue seria cumprido.
Caminhei até o espelho do guarda-roupa e comecei a me arrumar. Escolhi um vestido branco, simples, mas que se ajustava delicadamente ao meu corpo. Enquanto ajeitava as alças, puxei meus cabelos para a frente.
Durante esse ano de espera, eles haviam crescido mais um palmo inteiro; agora, os fios castanhos, levemente ondulados nas pontas, batiam na minha bunda. Eu me sentia diferente.
— Olá, Dante. É bom ver você de novo — sussurreu para o meu reflexo, limpando a garganta e endireitando os ombros. — Sim, eu cumpri a minha parte. Estou pronta. Pode me levar.
Praticar a conversa comigo mesma diante do espelho tinha se tornado um hábito diário. Sabendo que passaria a morar com um homem bruto e de poucas palavras, passei os últimos trezentos e sessenta e cinco dias tentando desenvolver minha habilidade de falar, de manter um diálogo sem que o pânico social travasse a minha garganta e me fizesse gaguejar como uma idiota.
Para garantir isso, também usei o tempo de isolamento para aprender a cozinhar coisas básicas. Minha mãe sempre detestou que eu tocasse nas panelas, mas enfrentei suas reclamações e descobri que amava aprender a preparar o arroz, o ponto certo da carne, o aroma do tempero fresco.
Cada vez que eu cortava um ingrediente, meu pensamento caía inevitavelmente nele. Pensar em Dante, no seu tamanho e na sua proteção, não me enfraquecia; pelo contrário, foi o que me fez evoluir como mulher.
Eu mudei por mim
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Saí do quarto e encontrei a mesa do café da manhã posta.
Meus pais já estavam sentados, mas o clima na casa estava denso, pesado. Eles pareciam infinitamente mais nervosos do que o habitual naquele dia. Minha mãe mal conseguia segurar a xícara sem que a porcelana tremesse, e meu pai mantinha os olhos fixos no prato, com a mandíbula rígida. Eles sabiam que dia era hoje. Sabiam que eu não tinha esquecido.
Sentei-me e, imediatamente, comecei a coçar a palma da minha mão esquerda com o polegar direito. Era um tique nervoso antigo, um hábito que sempre se manifestava quando a minha fobia social atingia o ápice ou quando algo grandioso estava prestes a acontecer.
Coça, coça.
Minha pele já estava ficando vermelha, mas eu não conseguia parar. A expectativa estava me sufocando.
— Milena, coma alguma coisa, por favor — minha mãe implorou, a voz embargada. — Você passou a semana inteira aérea. Por que esse vestido branco?
— É meu aniversário, mãe. Quero estar bonita — respondi de forma simples, mantendo os olhos no meu copo de suco.
— Você sabe muito bem o porquê, Antônia — meu pai rosnou, a voz amarga, ajeitando o braço que ainda doía às vezes por causa daquela noite. — Ela acha que aquele criminoso vai cruzar aquela porta. Mas eu garanto, Milena, se aquele bruto pisar aqui, eu...