O cheiro de antisséptico e o barulho dos monitores cardíacos eram sufocantes, mas, para a minha fobia social, as paredes brancas daquele quarto de hospital eram o menor dos males. Meu pai estava deitado na maca, com o rosto coberto de curativos e o braço esquerdo engessado.
Quando ele finalmente abriu os olhos e recobrou a consciência, a primeira coisa que fez foi segurar a minha mão com os dedos trêmulos e pedir o celular. Ele ligou para a minha mãe.
Não demorou vinte minutos para que a porta do quarto fosse aberta num estrondo abafado.
Minha mãe entrou correndo, com os cabelos castanhos completamente desgrenhados e o rosto lavado em lágrimas. Ela era uma mulher sensível, que sempre viveu para proteger a nossa bolha, e ver o marido daquela forma a quebrou por dentro.
— Meu Deus! O que aconteceu com vocês? — ela gritou, chorosa, jogando-se entre os braços do meu pai e depois me puxando para um abraço sufocante. — Quando você não voltaram com o bolo... eu achei que o pior tinha acontecido!
— Calma, querida. Nós estamos bem. A Milena está bem — meu pai tossiu, a voz fraca, tentando acalmá-la enquanto ela o examinava centímetro por centímetro, chorando de puro alívio.
Dante estava lá.
Ele tinha permanecido o tempo todo na penumbra do hospital, escorado contra a parede, com os braços cruzados sobre o peito musculoso. Ele não havia dito uma única palavra aos médicos ou aos meus pais. Apenas observava tudo. Seus olhos pretos e perturbadores estavam fixos em mim, ignorando completamente o choro dramático da minha mãe ou os agradecimentos fracos que meu pai tentou esboçar antes.
A presença daquele gigante de quase dois metros com uma cicatriz medonha no rosto parecia congelar o oxigênio do quarto.
Assim que a situação finalmente se estabilizou e os médicos aplicaram um sedativo para o meu pai dormir, mamãe se afastou para ir até a recepção assinar alguns papéis da internação. Foi o momento que Dante esperava. Ele se desencostou da parede, seus passos firmes ecoando pelo piso de borracha até parar bem na minha frente, me cobrindo com sua sombra esmagadora.
— O seu pai vai sobreviver, garotinha — a voz dele saiu naquela tonalidade rouca e arrastada, cortando o silêncio do quarto. — Eu cumpri a minha parte. Agora, vim lembrar você do nosso combinado.
Engoli em seco, sentindo meu coração acelerar pelo pânico social de tê-lo tão perto.
— O... o combinado? — gaguejei, apertando o tecido do terno dele contra o meu corpo. — Você disse que eu passaria a te pertencer. O que isso significa?
Dante inclinou o corpo na minha direção, o rosto sério cortado pela cicatriz ficando a poucos centímetros do meu. O cheiro de uísque e colônia forte me causou um arrepio imediato.
— Significa que você será minha esposa — ele disparou, sem qualquer hesitação ou rodeio.
Arregalei os olhos, chocada. Minha mente travou por completo.
— Esposa?! Mas... eu acabei de fazer dezessete anos hoje! Eu sou menor de idade! — exclamei num sussurro desesperado, com medo de acordar meu pai.
— Eu escutei bem o que você gritou para aqueles vermes na rua, Milena. Sei exatamente a sua idade — Dante deu um meio sorriso frio, repuxando a pele marcada do rosto. — Eu não sou um monstro completo. Não vou levar uma menina para a minha fazenda. Por isso, vim te dar um prazo. Eu virei te buscar para nos casarmos daqui a exatamente um ano. No mesmo dia de hoje. No seu aniversário de dezoito anos.
Fiquei sem ar. Um ano. conforme eu olhava para os olhos pretos e firmes dele, o pânico absoluto que eu costumava sentir perto de estranhos começou a se transformar em outra coisa. Havia um conforto esquisito na possessividade dele.
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Rendida ao Monstro
RomansaEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
