Dante
O silêncio daquela casa costumava ser o meu único refúgio, mas naquela madrugada, ele era um peso insuportável no meu peito. Eu estava parado na varanda escura, sentindo o vento frio da noite bater contra a minha pele, mas nada parecia capaz de resfriar o sangue que ainda fervia nas minhas veias. Meus punhos continuavam cerrados, os nós dos dedos brancos de tanta força.
O que eu fiz?
A pergunta martelava na minha cabeça com a força de uma marreta. Passei as últimas duas semanas saindo antes do sol nascer, me afundando nos negócios mais sujos da facção, descarregando minha raiva em qualquer um que cruzasse o meu caminho, tudo para ficar longe dela. Para não tocá-la. Eu via a inocência daquela garota de longe e sentia uma necessidade doentia de protegê-la do mundo, de preservá-la do homem que eu sou. Mas bastou o boato de que ela havia sumido, a simples menção de que outro homem poderia ter colocado as mãos nela, para o monstro que eu tranco no porão da minha mente arrombar as portas.
Eu a cacei como um animal. Eu a joguei naquela cama. E, no meio do meu delírio de posse, eu levantei o cinto contra ela.
Fechei os olhos, soltando um rosnado baixo contra a escuridão. O grito de dor de Milena ainda ecoava nos meus ouvidos, um som agudo que cortou a minha alma e me trouxe de volta à realidade. E então, ela desabou. Aquelas palavras desesperadas — confessando que tinha passado o ano inteiro desenhando o meu rosto, que tinha esperado por mim todas as noites — me atingiram com mais força do que qualquer tiro que já levei no peito.
Ela não estava fugindo. Ela estava na porra do galinheiro, obedecendo a ordens de alguém que eu ainda ia descobrir quem era. E eu a marquei.
O que mais me enlouquecia, o que me deixava completamente hipnotizado e sem chão, era o que aconteceu depois. Quando ordenei que ela abrisse as pernas e tirei a mão que tentava se esconder, a visão daquela calcinha escura, completamente manchada e úmida sob a luz da lua, obliterou o resto do meu autocontrole. O corpo dela me desejava tanto quanto o meu implorava para se enterrar nela. A inocência dela misturada àquela resposta carnal tão violenta... eu nunca tinha visto nada parecido. Passei o dedo por cima daquele tecido encharcado e senti o corpo dela contrair. Eu quebrei. Gozei diante dela como um adolescente sem controle, rendido à fragilidade da minha presa.
Mas a imagem final que ficou gravada na minha mente antes de sair daquele quarto foi o estrago. O lábio cortado pelo meu soco anterior, a coxa alva marcada pelo couro, o rosto sujo de terra. E, quando tentei me aproximar para limpar, para cuidar, o reflexo dela de encolher os ombros e se afastar do meu toque... aquilo me rasgou ao meio. O nojo, o medo legítimo nos olhos dela.
Dei um soco violento contra a pilastra de madeira da varanda, sentindo a dor latejar na minha mão, mas a dor interna era maior. Eu a queria. Eu a desejava a ponto de adoecer. Mas eu tinha acabado de se transformar no pior pesadelo da única mulher que acordava o resto de humanidade que ainda existia em mim.
Olhei para a janela do andar de cima, sabendo que ela estava lá dentro, chorando no escuro. Ela me odiava agora. E o pior de tudo é que ela tinha toda a razão do mundo para isso.
Subi as escadas lentamente, o silêncio da casa agora pesando de uma forma diferente. Cada degrau parecia me levar de volta para a realidade que eu mesmo tinha moldado com as minhas próprias mãos calejadas.
Uma vez, eu ouvi uma frase que me acompanhou até o exato momento em que eu a encontrei: "Se você não tem razão para estar vivo, é a mesma coisa de estar morto". Por anos, eu fui apenas um fantasma vagando pelos negócios da facção, um executor sem alma que apenas cumpria ordens e derramava sangue. Mas agora, depois de muito tempo, eu finalmente estava sentindo que tinha um objetivo real. Minha mente trabalhava em uma frequência possessiva: eu precisava protegê-la do mundo, e precisava dominá-la por completo.
Demorei tempo demais para sentir o meu peito pulsar desse jeito, e não ia abrir mão dela tão facilmente. Aquela garota me pertencia. Eu faria o que bem quisesse com ela, até me cansar, exatamente da forma como estou acostumado a fazer com tudo o que cai nas minhas mãos. Ela era minha propriedade, minha fraqueza e minha cura.
— Que silêncio... — murmurei para o corredor vazio, a voz saindo num fio rouco.
Prestei atenção no ambiente e percebi o fim do choro da minha garota. Os soluços baixinhos finalmente tinham cessado. Olhei de relance para a janela do corredor e vi os primeiros feixes cinzentos da aurora cortando o céu. Já estava quase amanhecendo, e ela só tinha conseguido se acalmar agora, vencida pelo cansaço do próprio sofrimento.
Me empurrei para dentro do quarto com passos silenciosos. A luz fraca da manhã começava a revelar os detalhes do cômodo. Eu a encontrei encolhida entre as cobertas pesadas, parecendo ainda menor do que já era, tentando desaparecer sob o tecido. Levei as mãos à gola e tirei a minha camiseta, jogando-a no chão, sentindo o peso do cansaço exaustivo finalmente cobrar o preço nas minhas costas.
Amanhã cedo eu ia esclarecer toda essa história. Ia descobrir quem a mandou para o galinheiro e colocar regras rígidas demais naquela casa, limites claros para garantir que uma situação como essa nunca mais voltasse a acontecer. Eu não toleraria mais falhas. Nem dos meus homens, nem dela.
Me deitei na cama com cuidado, sentindo o colchão afundar sob o meu peso. Sem pedir licença, estendi os braços compridos e a puxei para perto, trazendo as costas dela contra o meu peito. Seu rosto estava inchado, os cílios ainda úmidos colados na pele sensível. Passei a ponta dos dedos de leve pelo contorno da sua bochecha machucada. Meu peito doía ao ver o estrago que eu tinha causado, uma pontada incômoda que eu odiava sentir, mas logo afastei o pensamento. Convenci a mim mesmo de que aquilo era necessário. Era pelo bem dela. Ela precisava entender quem mandava.
— Você precisa de mim... — afirmei em um sussurro baixo, mais para mim mesmo, para justificar a minha própria obsessão, do que para ela.
Como se estivesse respondendo ao frio da madrugada, o corpo gelado de Milena se encolheu ainda mais, encaixando-se perfeitamente no meu espaço, buscando o calor que emanava da minha pele. Sentir o formato dela contra o meu peito foi o suficiente. Meus músculos tensos cederam, a guarda na minha cabeça baixou e, com o aroma dela invadindo meus sentidos, meu corpo finalmente relaxou, me entregando a um sono pesado.
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Rendida ao Monstro
RomanceEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
