Alguns estão voltando para casa, outros estão saindo, arriscando-se na noite, enfrentando as luzes que vão acendendo e as sombras dos becos.
Na noite o vento é fresco e ameniza o calor, mas isso não ameniza os olhares preocupados a cada rua.
Os sorrisos são embriagados, embriagantes, os olhos despreocupados e as pernas fracas vão trôpegos a cada rua.
Com o tempo que passa outras pessoas vão chegando. Todas riem, falam alto, quase gritam.
Os saltos chocam-se nas calçadas, formam musica, o rebolar dos quadris insinuante e as ajeitadas na roupa faziam parte do show. Os vestidos curtos, decotes profundos e as bijuterias que brilham mais que as luzes.
Depois de algum tempo paradas, no qual hora ou outra um homem passava; alguns olhando disfarçadamente e outros encarando descaradamente. Uma delas foi escolhida por alguém dentro de um carro prata e despediu-se rapidamente das outras.
Elas aguardavam por alguém procurando alguma distração, com conversas rápidas tratando de negócios, cifrões . Nada que custasse muito, apenas um preço justo para quem paga e o aceitável para quem vende.
Sem muitas palavras, elas forçavam risos e olhares luxuriosos que convencessem o cliente . Aquele era seu melhor marketing, sua arma para aparecer mais que as outras, concorrentes. Como marcas concorrentes que buscam parecer mais atraentes que as outras.
Elas não olhavam para os lados nervosamente, como se não quisessem ser vistas ou como se houvesse vergonha ali. Eram apenas elas trabalhando mais uma noite, parecendo não sentir o vento frio mesmo com as roupas curtas, parecendo não sentir os olhares que sem palavras diziam que sabiam tudo que elas eram. Mas não sabiam.
A arte de cada uma, a performance , o rótulo, a atuação e o improviso. Tudo que aquele trabalho árduo exigia , o esforço físico de ficar em pé por tanto tempo, as vezes andando de uma esquina a outra, sentando-se no meio fio depois de ser deixada por outro cliente, preparando-se para outro.
A cada dia ser uma mulher, com seus trejeitos, as vezes mais hostil, em outras vezes delicada...
Mas daqui do décimo terceiro andar não sei quem elas são, sei o que fazem a noite, mas não sei quem elas são. Talvez ninguém saiba realmente.
Em quanto retocam o batom, ninguém sabe no que pensam. E na volta para casa, ninguém pode saber o que se passa por suas cabeças.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Bluebird
PoesíaProsa e verso. Um compilado de contos, crônicas, poemas e cartas sem um destinatário especifico, e com um remetente qualquer. Alguns dos textos também estão no meu blog.
