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31. Ciúmes - Giovanni

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A reação profunda de desamparo de Emily ao saber da situação do Gustavo me surpreendeu por sua intensidade, e finalmente compreendi o que Sérgio me dissera: não era só amor, eles eram o apoio um do outro. Um despencou e o outro foi junto.

Diante de uma situação tão revoltante de uma reação de um pai ao descobrir que o filho era homossexual, senti-me penalizado.

O mais difícil e ambivalente foram as sensações que me atingiram ao me deparar com o Ricardo, o cara que compartilhou uma enorme história com Emily. Ele era completamente diferente do modo como eu o imaginava, muito mais bonito. Vestia uma regata e bermuda, demonstrando seu corpo bronzeado e malhado. Cabelos dourados e olhos azuis davam-lhe charme. Senti-me em completa desvantagem física ao observá-lo.

Eles se consolavam mutuamente com tanto sentimento que cheguei a pensar que perderia Emily de vez. O meu real rival estava presente e eu nada podia fazer para afastá-lo dos abraços de minha namorada, sob pena de parecer o mais insensível das pessoas ao ter uma crise de ciúmes em um momento como este.

O pior foi quando Ricardo virou-se, meu estômago embolou-se de raiva ao avistar uma tatuagem igual à de Emily em seu braço; era muito maior, contudo igual, com se fossem um casal. Quis xingá-los de estúpidos por fazerem algo permanente como uma tatuagem. A tatuagem que me seduzia toda vez que via Emily de costas fazia parte de uma lembrança de outro amor. O pensamento me entristeceu.

Ricardo seria um incomodo, seus olhos me diziam que ali não era o meu lugar e desafiavam-me, como Gustavo nunca fez. Gustavo me fitava desgostoso no início, contudo não sentia ameaça real, e agora, no hospital, eu finalmente compreendia o motivo. Ele apenas se sentia frustrado por eu ter roubado o seu tempo com sua amiga.

Emily se precipitou em afirmar que levaria o amigo para morar com ela. A ideia não me agradou, pois era uma responsabilidade grande demais para ela assumir; apesar de sua casca de fortaleza sabia que isso seria avassalador para ela. Em seu ânimo normal já era visível como Gustavo dependia de Emily, agora isso deveria triplicar. Mas que outra opção teria? Deixar Gustavo na rua? Como um pai podia fazer algo assim a um filho?

Levar Gustavo, Emily e Ricardo, abraçados calados, no banco traseiro de meu carro foi constrangedor. Era terrível para o meu ego perceber como eu não fazia falta nenhuma para ela no momento, a companhia de Ricardo parecia bastar para confortá-la.

Ocupada com Gustavo, Emily não prestava atenção a mais nada. Ricardo andava pelo apartamento como se retornasse a um antigo lar. Pegou Lucky com propriedade ao analisar como a ave havia crescido. O fato de vê-lo tão à vontade num lugar que eu compartilhava agora com minha namorada me causava náuseas. Eu sei que esse não era o momento certo para uma crise de ciúmes, mas como conseguir controlar?

O garoto era novo, mas não tolo. Ele sabia como sua presença me afetava e mostrava-se cada vez mais dono do lugar. Numa postura desafiadora, ele sorriu debochado ao apoiar-se no braço do sofá ao lado de Emily conversando com ela e ignorando-me por completo. Minha namorada não partilhava de nossa disputa e aninhou-se em meu braço, enquanto trocava o canal da TV sem nenhum interesse aparente. Lancei um olhar vencedor a Ricardo que me fuzilou com os olhos.

Sérgio e seu filho chegaram da casa de Gustavo com suas roupas e outras coisas, eu e o garoto abusado descemos para ajudá-los. Ao pegarmos as coisas no porta-malas, Ricardo deu-me um encontrão e me mirou debochado:

— Desculpe, não percebi que estava aí.

Passei com as roupas na mão e dei-lhe um empurrão imitando seu ato e pedindo desculpa com a mesma ironia. Sorri vitorioso, contudo ele parou na minha frente em fúria:

— Você é figurinha nova e vem dar de galo para cima de mim. Não percebeu que está sobrando? Deveria ir embora.

Ele posicionou-se com os punhos fechados em luta. Estava tomado pela raiva. Quem esse fedelho pensa que é para me ameaçar? Larguei as roupas no chão e preparei-me para iniciar a briga. Sérgio surgiu na porta e encarou-nos decepcionado:

— Vocês não têm vergonha de fazerem essa cena infantil?

— Ele que implicou! — Ricardo resmungou como se fosse uma criança a quem roubaram o brinquedo.

Sérgio tocou em nossos ombros e falou com voz firme:

— A situação é séria e vocês se estranham por ciúmes? — Sérgio se virou para Ricardo que abaixou a cabeça. — Me envergonha saber que está brigando com o namorado da Emily enquanto deveria estar ao lado de seu irmão. — tive um segundo de sentimento vitorioso, até Sérgio fixar o olhar em mim. — E você, Giovanni, deveria apoiar sua namorada ao invés de agir como um adolescente.

Sérgio pegou algumas coisas do seu carro e subiu. Eu e Ricardo fitamo-nos encabulados. Eu me senti péssimo com as palavras e o olhar de Sérgio. Tinha perdido toda a razão e minha maturidade por conta de um garoto. No passado, não fora um cara ciumento, contudo os garotos que rodeavam Emily pareciam exacerbar essa minha falha. Peguei as roupas que havia colocado no chão e cabisbaixo segui para o apartamento; Ricardo fez o mesmo quietamente.

Na sala mirava com vergonha Sérgio, que não comentou nada sobre a querela em frente a seu carro. Ricardo voltou a concentrar-se em sua família, queria notícias de como seu pai agira quando foram tirar as coisas de Gustavo de casa. Pelo modo do filho de Sérgio falar, era visível que o homem era um covarde apenas capaz em bater num garoto frágil, pois não enfrentou Sérgio, um sessentão. Ricardo havia arrancado o pai de cima do irmão com brutalidade e o homem não revidara ao filho mais forte. Com certeza era um imenso covarde que só intimidava o mais fraco. Pensei enojado.

— Sua mãe mandou dinheiro para você e Gustavo. Implorou por perdão e disse que conversará com seu pai, que no momento ele só está chateado e surpreso, mas que depois ele irá voltar atrás em sua decisão.

Sérgio entregou um envelope recheado de dinheiro para Ricardo. Conturbado, ele colocou-o nas mãos de Emily para cobrir as despesas de Gustavo, informando que não precisava do dinheiro.

Um gesto nobre, mesmo não gostando do garoto não podia negar que ele gostava tanto do irmão como Emily. Deu-me pena dele por um tempo, apesar de toda a sua aparência de forte, ele sofria tanto quanto minha namorada por toda a situação. O ato do pai dos garotos parecia ter causado muito mais estragos emocionais em ambos os filhos do que físicos. Não por menos, eu estaria completamente arrasado se tivesse que ter batido em meu pai para poder salvar meu irmão. Corajoso ele era, pena que lutávamos pela mesma mulher.

A reação da mãe dos meninos chamou-se atenção, mesmo com toda a atrocidade que seu marido fizera ela continuava ao seu lado. Minha mãe adorava meu pai e era contrária a separações, entretanto não seria capaz de ficar a favor dele se acontecesse algo parecido. Emily evitava comentar comigo sobre a família de Gustavo e quando o fazia demonstrava grande insatisfação, atualmente eu podia entender o porquê.


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