Em minhas tardes de folga, costumava ler alguns artigos científicos ou organizar as aulas, contudo hoje estava com saudades da minha pequena. Não era um dia programado de visitas, todavia liguei para Rebeca pedindo permissão para ver milha filha.
Esta era a pior parte do divórcio, ficar a mercê do bom humor de minha ex-mulher para poder passar um tempo ao lado de Nina. Surpreendentemente, Rebeca aceitou meu pedido sem fazer um drama de quinze minutos sobre algum aspecto de minha personalidade que a chateava.
Passeio de pai separado não fugia muito de shoppings, praças ou zoológico. Desta vez, Nina queria ver uma animação no cinema.
A vantagem de ser um pai nessa situação é que aprendemos a dar mais atenção aos nossos filhos. Embora, em alguns momentos, Nina tentasse tirar proveito de minha culpa por não participar diariamente de sua rotina pedindo presentinhos ou teimando, algo que não era seu costume quando morávamos na mesma casa. Meu coração por vezes amolecia cedendo às vontades de minha filha. Como poderia negar algumas coisas aos olhinhos pedintes de uma menina de sete anos?
Após o cinema, paramos na praça de alimentação para pegar um lanche, preferiria que ela comesse algo saudável, no entanto ela me dobrou novamente. A mesa ficou coberta por batata-frita, hambúrguer, sorvete e chocolate. Nina comia o resto de sua sobremesa, pensativa.
— Vai ser sempre meu pai?
— Claro que sim. — sua dúvida me pegou de surpresa. Como devia estar a cabecinha de minha filha com o divórcio? Puxei o ar não permitindo que ela visse meu abalo emocional diante de usa pergunta. Ofereci-lhe um guardanapo para deixar sua boca um pouco menos melecada chocolate. — Por que me perguntou isso?
— O primo Júlio nunca mais viu o pai.
Seu medo apertou meu peito. Minha filha me comparava com o irmão de Rebeca. O cara se envolveu em paixões passageiras com garotas mais jovens e simplesmente se esqueceu do filho.
Olhei no fundo dos olhinhos de Nina, segurei sua mão melecada entre as minhas e disse firme:
— Não importa o que aconteça, sempre será minha filha amada.
— Mesmo se casar de novo? — ela testava a sinceridade em minhas palavras, ao me olhar com sobrancelhas curvas.
— Sim. — confirmei com convicção. Meu amor por Nina não seria abalado por nada no mundo e eu queria que ela entendesse isso. Além do que ter casado uma vez já havia sido uma experiência bastante frustrante para ser repetida.
— Mamãe disse — suspirei ao me preparar para o desastre por vir. Quando Nina iniciava a frase deste modo, era previsível que a continuidade seria algo distante de elogios ou palavras otimistas sobre mim. — que logo vai se amarrar com uma vadia e não vai mais me dar atenção.
— É feio falar assim! — repreendi-a ao erguer a sobrancelha pelo palavreado usado, Nina emburrou-se. Onde minha ex-mulher está com a cabeça para falar desta forma com uma criança? O modo como Rebeca se referia à minha pessoa para Nina enchia-me de raiva. Minha língua estalou ansiada por dar o troco, e mostrar quem estava errado. Contudo, por respeito a minha filha eu reprimi o sentimento danoso. Acalmei-me. — Mesmo se eu tiver outra pessoa, nunca vou te abandonar.
— Promete? — acenei em positivo, mas ela não estava convencida. — Não vale cruzar os dedos.
— Prometo de todo o coração. — sorri ao mostrar minhas palmas abertas.
Convencida ela sorriu e voltou a comer o chocolate. Então me olhou preocupada:
— E se a mamãe casar de novo?
VOCÊ ESTÁ LENDO
Jovem Amor
RomanceExiste idade certa para amar? Giovanni é professor na faculdade de Biologia e acaba de se separar de sua mulher. Ele não tinha muito a ver com Rebeca desde o princípio e o passar dos anos só fez aumentar a distância que havia entre eles. Emily n...
