Capítulo 6

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Antes de sair Egydinha pediu permissão à mãe para doar duas de suas roupas para Ciça, alegando que gostaria que a ama se arrumasse melhor para acompanhá-la até o Centro.

- Ela tem o corpo parecido com o meu. E como a senhora diz: temos que fazer caridade.

- Faça como achar melhor, mas não abuse. Os empregados precisam reconhecer seus lugares.

- Ora mamãe! A Ciça sempre foi um amor de candura e respeito também.

Foi assim que naquela tarde, Egydia e Ciça, sua serviçal saíram como duas amigas. E Ciça se sentiu a vontade para fazer confidências.

No Bonde

- Patroinha, eu não queria abusar, mas preciso lhe pedir um favor.

- Fale Ciça. Do que se trata?

Ciça lhe entrega a carta que recebeu que estava dobrada entre seus seios.

- Será que a sinhazinha pode ler pra mim?

- Claro que sim. Posso abrir?

- Sim, por favor. - disse Ciça ansiosa

E lá mesmo no Bonde que as levavam até o Centro as duas ficaram sabendo do que se tratava.

- Um lindo postal Ciça! Veja! E parece ser de um pretendente que quer conquistar seu coração.

- O que diz aí?

- "Para a morena mais linda da Capital ofereço essa flor e o meu coração. Benedito Silva"

- Mas quem será esse Benedito?

Egydinha sorriu da ingenuidade de Ciça e falou:

- Ora Ciça, é o Tito, o carteiro.

- Será? – ela ainda demorou a entender.

- Claro que sim. Tito é só um apelido, o nome de certo é esse: Benedito Silva.

- É, vou ter que perguntar a ele quando ele aparecer se foi ele mesmo que mandou essa flor, quer dizer esse...

- Postal Ciça. Aliás, belíssimo. É do tipo mais caro porque tem relevo, sinta a flor.

- É bonito sim, mas...

- Mas o que? Fale Ciça!

- Eu pensei em me casar com um rapaz mais acertado, assim com mais...

- Posses. Um rapaz que pudesse lhe proporcionar uma vida melhor. Eu entendo, mas veja Tito é trabalhador e esforçado. Você devia dar uma chance a ele. Por outro lado eu acho que posso lhe ajudar nessa história de melhorar de vida, de ganhar dinheiro.

- Pode? – Ciça arregalava os olhos como a esperar a revelação da boca de sinhazinha.

- Vou lhe ensinar a ler e escrever. Todos os dias da semana, de segunda a sexta, durante uma hora teremos aula. Pode ser na cozinha ou na varanda do meu quarto. Isso eu posso fazer. Eu só preciso pedir permissão à mamãe.

- Vige! Dona Inês vai me mandar embora se a senhorinha começar com essa conversa de me ensinar a ler.

- Eu sei como convencer minha mãe Ciça. Com o que eu vou te ensinar você vai ver que palavras podem ser usadas como grandes argumentos para se ganhar uma batalha.

- Uma batalha? Mas eu não quero que sinhazinha brigue por minha causa.

- Fique calma Ciça. Deixe isso por minha conta, está bem? Agora vamos levantar e nos preparar para descer no próximo ponto.

- Sim sinhazinha.

- Ainda temos que andar um bom pedaço. – completou Egydinha.

No Ateliê da Costureira

Egydia experimentou o vestido de noivado na Madame Tedesco e aproveitou para ir até o Convento da Ajuda para comprar doces com as monjas. Ela adorava as mães-bentas, o seu preferido.

Quando estava recebendo os doces o barulho de tropa cavalariça veio aos seus ouvidos. Ela se virou e observou os soldados passarem devagar, um atrás do outro. Um deles retirou a boina e a cumprimentou com um lindo sorriso. Ela retribuiu o sorriso e ao ver as lindas covinhas de Egydia o soldado se animou e disse.

- Bela! Bela!

- Bela o que soldado? - gritou uma voz mais a frente.

- Bela Cidade Capitão!

- Silêncio!- gritou o Capitão.

Egydinha e Ciça riram da situação do soldado, que quis fazer um gracejo para Egydinha e quase ficava a pé como castigo.

Depois que a tropa passou, Ciça comentou:

- Bonito soldado!

- É bonito sim, mas provavelmente não o veremos mais.

- Eles sempre passam por aqui essa hora sinhazinha, isso já me contaram lá no terreiro.

- É... Mas eu não estou interessada Ciça, esqueceu que estou quase noiva?

Como Ciça nada respondesse, Egydinha completou.

- Vamos indo, precisamos chegar antes que meu pai.

EgydinhaOnde histórias criam vida. Descubra agora