Capítulo 3

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    Dr. Rudolf era canadense. Ele tinha vindo para o Brasil por conta da implantação do Rio de Janeiro Tramway Ligth and Power Company , concessionária de energia elétrica canadense.

    Senhor Otávio, pai de Egydinha, tinha sido apresentado ao Dr. Rudolf numa reunião de amigos no clube. Depois de alguns meses de convivência e jogatina, Sr. Otávio convidou Dr. Rudolf para um almoço beneficente na Paróquia do Bairro.

    No princípio, Dr. Rudolf recusou, mas quando soube que iria conhecer a jovem filha do amigo, Egydia, e ela cantaria no Coral da Igreja, tratou de mudar de idéia.

    - Meu caro amigo, já que se trata de tão importante evento, então não me farei de rogado. Irei sim! E darei minha contribuição para a Igreja. De quanto seria?

    Ali, naquele momento, sob o olhar insinuoso do Dr. Rudolf, o Senhor Otávio começou a achar que o infeliz e rico amigo gostaria de casar outra vez. E apesar de ser ele tão mais velho que sua filha, a ideia não estava de todo descartada na sua cabeça.

    - Isso Doutor é lá na hora com o Padre Firmino. Combinado?

    O dia do almoço chegou e Senhor Otávio que já havia conversado com a família sobre o possível aparecimento do importante amigo, não o viu na Igreja na hora da Missa. Pensou consigo mesmo: "Será que ele não vem?". Já havia dito a esposa tudo que estava pensando daquele encontro entre a filha e o futuro pretendente. Estava decepcionado.

    Acabada a missa, saíram todos para a Praça em frente à Igreja. Lá fora havia uma mesa grande, a principal, e outras mesas menores com menos cadeiras. O almoço seria servido em cada mesa pelos serviçais das senhoras patrocinadoras do almoço. O Padre e o Prefeito encabeçavam a mesa grande, cada um de um lado, bem longe um do outro. As outras pessoas iam sendo levadas, cada família para sua mesa.

    Quando já estavam para sentar-se à mesa dos Mello, eis que chega Dr. Rudolf, muito bem trajado.

    - Querido amigo, cheguei tarde, não? – disse ele.

    - Ainda em tempo, ainda em tempo. Antes de sentarmos deixe lhe apresentar minha família: minha esposa Dona Inês...

    - Encantado minha Senhora!

    - Minha filha Egydia Silva Mello! – disse Senhor Otávio sem disfarçar o orgulho.

    - Encantado senhorita!

    Egydinha estava vestindo azul. O vestido de brocados lhe cinturava a cintura e no sutil decote disfarçado por uma gaze clarinha estava um grande camafeu de pedra rosa que chamava atenção para o par de seios fartos e eretos de sua mocidade.

    Egydinha sorriu e no seu rosto apareceram as covinhas que davam um toque a mais de alegria no seu sorriso.

    Senhor Otávio continuou as apresentações:

    - Minha sobrinha Ruth Bastos Mello.

    - Encantado Senhorita!

    Ruth trajava um vestido rosa de mangas bufantes e usava uma gargantilha com uma medalha de Nossa Senhora do Carmo.

    As primas sorriram do jeito igual de falar do Dr. Rudolf.

   - Podemos sentar agora? – pergunta Egydinha.

    A mãe olha para baixo um pouco envergonhada da pressa da filha, parecia não estar dando muito importância para as apresentações.

    - Por favor, sente Senhorita! Damas primeiro. – disse Dr. Rudolf puxando a cadeira para Egydinha.

    O almoço transcorreu animado nas mesas, mas no final foi proposto um brinde regado a vinho para os homens que se reuniram fora das mesas. Este era um momento esperado por eles que queriam falar de política com o Senhor Prefeito ou de doações com o Senhor Padre.

    Uma Irmã de Caridade vem chamar as meninas na mesa.

    - Padre Firmino mandou chamar as meninas do Coral. Todas devem ir para o Coreto.

    - Com licença mamãe!

    -Vá Egydinha! Vá Ruth! Vou ficar aqui torcendo por vocês, será uma bela apresentação!- Dona Inês abanava em leques seu calor e a ansiedade do esperado momento da ver a filha e a sobrinha cantar.

    As meninas, que já haviam saído da mesa, aproveitaram para comentar:

    - Dr. Rudolf não tirava os olhos de você! – disse Ruth.

    - Eu percebi.

    - Ele é... Ele é...

    -Muito velho para mim, você quer dizer? Ah Ruth, os homens são tão... São tão...

    - Velhos! - completou Ruth.

    - Não sua tonta! Os homens são tão iguais! Pelo menos eu percebo assim. Vejam, os mais jovens falam muito e os mais velhos falam pausadamente. No final a conversa é a mesma coisa , isso é coisíssima nenhuma! – Egydinha falava isso rodopiando e rindo em volta da amiga.

    - Assim você me deixa tonta! Para!Eu não entendi nada!

    - Talvez seja uma questão de intimidade. Não temos intimidade com o sexo oposto.

    - Se você diz isso... Vamos logo, não quero ser a última.

    - Não seremos as últimas, fique certa disso.


EgydinhaOnde histórias criam vida. Descubra agora