IV - Juntos E Distantes

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"Aceitei contradições, lutas e pedras
como lições de vida e delas me sirvo.
Aprendi a viver."
Cora Coralina

Dias atuais - 5 anos depois

Eu poderia dizer que tudo mudou durante esses anos, poderia dizer que superamos a morte de Diana Maria, que a vida se tornou mais fácil e que me casei com Victoriano. Poderia dizer que sou inteiramente feliz, que não sou mais sozinha no mundo e que concebi um filho, que esqueci o passado e que finalmente posso agradecer a Deus pelo caminho difícil que me trouxe a felicidade, mas, nada mudou. Apenas me tornei mais que uma babá nessa casa, mas não do jeito que eu queria, não como mulher do patrão, somente como mais uma empregada com regalias e promessas de pertencer a familia, mas que na verdade é o que é. Uma serviçal, que faz seu trabalho com perfeição e amor, porque isso se tornou sua vida. Supervisiono tudo, Jacinta passou a me ajudar com as meninas e me tornei uma governanta respeitada por todos.
Minha relação com Victoriano se resumiu a amizade, confiança e respeito. Evito sonhar em tê-lo de outra forma além de patrão, foi assim que nos olhamos todo o tempo, pelo menos é o que eu tento. São cinco anos e ele nunca questionou meu suposto amor por Loreto, na verdade não posso esperar nada dele, sei que não devo e sei que não demorará para ele aparecer com outra mulher. Não sei se não me importaria ou morreria. As vezes me pergunto se ainda o amo ou se vivo iludida por um amor que nunca foi e nunca será.

- Senhora Inês?!

Meus pensamentos são interrompidos por Rosário que se aproxima correndo. Estou no jardim, no mesmo lugar que, a cinco anos atrás, prometi a Diana Maria cuidar das pequenas, no mesmo banco no qual a abracei e a consolei. As meninas estão na grama brincando com Jacinta. Observo a jovem moça de cabelos dourados que ressaltam sob a luz do sol com seus olhos azuis iguais a cor do céu, se aproximar, seus cabelos são jogados em seu rosto pelo vento e ela para diante de mim os colocando atrás da orelha.

- Senhora, tem um homem no portão exigindo te ver.

- Enrugo o cenho. - Um homem? Não conheço... - Paro de falar e meu coração acelera, será quem eu estou pensando. Não. Não pode ser. - Rosário fique aqui com Jacinta e não as deixe sair daqui.

- Sim, senhora.

Ando devagar, minhas pernas estão pesadas, talvez pelo medo de que minhas suspeitas sejam reais. Seria um pesadelo feito realidade se ele voltasse, se ele me encontrasse e fizesse vingança contra mim. Mas o medo não existe, uma vez ouvi alguém dizer isso, o medo é apenas nossa imaginação criando situações que não são. Respirei fundo e caminhei mais rápido, talvez seja apenas um cara qualquer querendo me dar um recado de sei lá quem.
Ao me posicionar de frente ao portão e a alguns metros de distância, o avistei. Romero, um dos guardas, estava ao lado dele e me olhou, eu respirei fundo. Preciso ser forte, preciso ser valente. Ele não vai tocar em mim. Caminhei, o peso em minhas pernas como toneladas de pedras amarradas a elas. Ele sorria para mim, aquele rosto ridículo e nojento; aquele sorriso sarcástico e insuportável; aquele ser desprezível havia me encontrado e estava ali, na minha frente, sorrindo como vitorioso e meu sangue ferveu. Desejei matá-lo.

- Você...

- Sim, Inesinha. Eu. - seu sorriso me matava por dentro, queria arrancar seu pescoço.

- Romero, nos deixe a sós. Por favor.

- Sim, senhora. Estarei por perto. - disse sem tirar os olhos de Loreto e com uma cara de poucos amigos. Ele saiu sem dizer mais nada, me deixando a sós com o homem que mais odeio no mundo.

- Então, é senhora? Casou-se com seu amado suponho.

- Isso não é da sua conta! O que você quer aqui? Como saiu da prisão? - não pude me defender de seu súbito agarro. Ele apertou meu braço com força aproximando seu rosto do meu agora sério e raivoso.

InêsHistórias para pegar e não largar. Descubra agora