XV - O Divisor De Águas

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"Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências."
Pablo Neruda

Minha vingança. De onde eu tirei essa baboseira? Eu posso feri-la um pouco demostrando que a superei, mas ainda assim estarei sem ela.
Esse jantar com Débora foi... Bom, por fazer meu filho ouvir minha voz, mas um fingimento total. No entanto, para ela, aquele beijo na despedida é o sinal de que voltamos e não vou negar. Voltamos. Amanhã a levarei a fazenda e todos saberão incluindo Inês. As crianças terão que manter uma relação com o irmão desde a barriga da mãe, é o certo, é... O natural.
No caminho, dirigindo em minha caminhonete, olhei para a escuridão ao meu redor, não se podia ver nem mesmo a mata e a planície ao longe; nem a lua iluminava o céu estrelado e, então, me senti parte dessa escuridão, ofuscado pelas estrelas.

Cheguei em casa por volta das 23hs e ao subir as primeiras escadas em direção a porta de entrada a vejo deitada na grama, cheia de casaco, com as mãos sob a cabeça e olhando as estrelas. Isso mexeu comigo demais. Ela mexe comigo. Me aproximei devagar, em um impulso irracional, e deitei ao lado dela, a qual se assustou e olhou para mim; ambos deitados.

- Não quero você aqui. - disse ela me olhando, mas eu olhava as estrelas.

- Em mais de 5 anos nunca deitei para ver as estrelas com você.

- Você não é dessas pessoas... - disse ela, ríspida e voltou a olhar as estrelas.

- Como assim? - perguntei olhando para ela.

- Você é... Arrr... Você é agitado demais. Olha seus pés... - ela apontou para eles. - Você não para de os mexer como se estivesse agoniado com a calmaria. - parei de mexer meus pés e suspirei.

- Talvez você tenha razão...

- Talvez não! Eu tenho!

- Então, me fale sobre as estrelas...

- Não sei muito sobre elas... - disse ela em um sussurro.

- E porque te fascina tanto? - ela suspirou e eu a olhei. Ela em perfil é tão linda quanto olhando em meus olhos.

- Meu pai, quando eu era pequena, me levava para o campo e junto aos bois, nos deitavamos; na total escuridão, para ver as estrelas. Era tão lindo, era fácil ver as poucas constelações que ele sabia e as que me ensinou. - ela falava com tanta alegria. Era uma lembrança feliz. - E... Olhar as estrelas me faz... Senti-lo junto a mim.

- E porque "era tão lindo"? - indaguei.

- As luzes escondem algumas estrelas e por mais que eu corra para o lugar mais escuro, ainda assim não é igual a antes.

Ficamos um tempo em silêncio olhando os poucos pontos brilhantes que se podia ver entre as nuvens. E então, pedi novamente.

- Me fale sobre as estrelas... - ela ficou calada, fechou os olhos e assim a encontrei quando me voltei para mira-la. Seu cenho frazido me fez perceber que o clima de paz havia desaparecido.

- Acho que você corre perigo. - continuei em silêncio. - O monstro aqui, que mata criancinhas, pode devorar você também. - o meu peito apertou como se algo esmagasse meu coração e suspirei.

- Você tinha que estragar tudo. - me levantei rápido.

- VOCÊ estragou tudo a muito tempo... - disse ela ainda de olhos fechados.

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