"Um homem saudável não tortura os outros.
Em geral, é o torturado que se torna o torturador."
Criminal Minds (Carl Jung)
Ele dirigiu apontando a arma para minha barriga em todo tempo, eu não tentei fugir. Loreto passou a viagem inteira em silêncio, as poucas vezes que falava era para dar gargalhadas e zombar de mim ou de Victoriano. Eu, por outro lado, chorei em silêncio. Não adiantaria falar, brigar ou gritar, mas eu tentaria fugir, mesmo se no fim ele me matasse. Quando Loreto teve certeza que ninguém nos perseguia, parou o carro, amarrou minhas mãos e vendou meus olhos. Pelo jeito seria a prisioneira dele e o que mais me apavorava não era perder a liberdade, mas ser usada por ele da forma mais cruel que alguém pode ser usada... Prefiro morrer. Seria melhor do que ser tocado por ele novamente. Pude ouvir ele ligar o carro e voltar a dirigir.
- Dessa vez você não vai fugir, Inesinha. Dessa vez te terei sempre que eu quiser e você não conseguirá impedir, nem fugir. Terás um filho meu e seremos uma família. - ouvir isso foi como uma facada em meu coração. Usei as mãos amarradas, abri a porta do carro e me joguei. Senti a dor ao cair no chão e rolar no asfalto, ralei meus braços e pernas, mas quando consegui ficar de pé, retirei a venda e comecei a correr, a dor dos arranhões pareciam não doer. Mas, não foi suficiente, ele me agarrou por trás. Comecei a gritar e a bater em Loreto, que com toda a força me deu um murro e desmaiei.
Abri os olhos e me vi em um quarto escuro, para minha surpresa, havia duas grandes janelas que deixavam a luz entrar e iluminar alguns pontos do quarto. Tentei me levantar, mas logo percebi uma corrente em meu pé esquerdo. Tinha uma porta logo a frente da cama de casal em que eu estava deitada e outra a esquerda. Levantei e a corrente me impedia de chegar perto da porta, nem mesmo se me esticasse ao máximo conseguiria tocá-la. Ainda vestia a mesma roupa, uma calça jeans rasgada no local dos arranhões, camisa social feminina azul marinho, mas estava descalça. Ainda assim, um bom sinal. Ele não me tocou enquanto estava inconsciente.
O quarto estava pintado de branco, tinha uma escrivania, uma penteadeira com um espelho, duas cadeiras próximas a uma pequena mesa, uma cômoda e a cama. Voltei a deitar e olhei para o teto, sentindo a dor dos arranhões e deixei as lágrimas rolarem. Tinha medo. O pavor corria por minhas veias como veneno. Sentia meu corpo tremer e tentava não pensar em ser tocada por Loreto, mas era inútil. Estava apavorada e não tinha para onde fugir, nem mesmo como me matar. Chorei por um tempo até que a porta se abriu, era ele, me sentei depressa e me encolhi, abraçando minhas pernas e recostada a cabeceira da cama.
- Está acordada. - ele sorria. Carregava uma bolsa e uma bandeja com algo de comer. - Aquela porta é o banheiro, vou soltá-la para que possa tomar um banho. Sei que deve estar me odiando, então deixarei a chave para que você abra a corrente sozinha. Não quero te bater novamente. Não hoje. Nessa bolsa tem um kit para você limpar essas feridas e tem umas roupas na cômoda que comprei, deve dar em você. Lembro de cada detalhe do seu corpo. - ele sorriu malicioso, tremi de pavor. Não me bater por hoje. Então, planejava me machucar depois. Ele deixou a bandeja na mesa e antes de sair jogou a chave para as correntes sobre a cama.
E se foi não esquecendo de trancar a porta, claro.
Voltei a chorar e deitei, ainda abraçada a minhas pernas. O que eu fiz? Me condenei. Mas, não poderia deixar Benigno ser morto. Não podia. Ele tem filhos que precisam do pai. Será que Victoriano tentaria me encontrar? Será que ele acreditou em mim? Deve ter acreditado. Eu estou perdida. Ninguém me encontrará aqui, nem mesmo tentará me encontrar. Talvez Benigno tente me achar, ele sabe que eu nunca amei Loreto. Mas, onde eu estou? Talvez em um lugar tão remoto que até que me achem, Loreto já haverá destruído com o resto de minha vida e sugado toda minha vontade de viver.
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Inês
Hayran KurguCertas coisas não fazem muito sentido, como por exemplo, como uns nascem para sofrer e outros para serem felizes... Muitas coisas na vida são mistérios e a minha está cheia deles, muitos dos quais eu morrerei sem desvendar. Por algum motivo, aparent...
