IX - Espectro do passado

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"A pretensão de querê-la não se somente a seiva de uma louca paixão, mas sim de um prazer ensandecido;"
Julio Aukay

É madrugada, o pavor das palavras de Loreto ainda estremece meu corpo e a insônia veio junto. Saí da casa enrolada em dois edredons, vestia roupa de frio e deitei na grama próximo às roseiras. Olhando o céu estrelado, pude ver a constelação de Orion e imaginar seu típico desenho, um homem forte com seu arco e flecha; deveria ser possível que ele vinhessse me salvar. Também, vi a constelação de gêmeos ao lado e minha mente voou para os últimos momentos com Victoriano. Aquela tarde em família e logo mais seus beijos, suas fortes mãos acariciando meu corpo, seus lábios tibios em minha pele; ele junto a mim sem reservas e a sensação de estar segura, amada... E assim, passei a madrugada. Acordei com o sol em meu rosto, tentei levantar e senti o corpo doer. Dormir no chão não fez tão bem ao meu corpo como fez a minha mente.
O dia foi como os outros e agradeci por ter um tempo sem Loreto a me rodear.
Nesse dia ele chegou com compras, me trouxe uma rosa branca, tão sem noção de mim, que não sabe se quer a minha flor favorita. Lírios brancos. Mas, peguei a rosa e coloquei em um jarro de vidro. Arrumei as compras sob os olhares maldosos dele, minutos iam e vinham, mas Loreto procurava algo a fazer na cozinha somente para me torturar com olhares torpes, em uma dessas "visitas" ele me pediu para preparar um Guacamole e assim o fiz. O jantar foi calmo a medida do possível.

- Está delicioso, Inês. - respirei fundo antes de responder.

- Obrigada... - ele parecia manso, bom.

Me despedi e fui para o quarto, fechei a porta pensando em quão inútil isso seria. Algo alertava meu corpo como um calafrio ao ver um fantasma. Pensei rápido e usei uma das cadeiras para dificultar que abrissem a porta, encostando o recosto da cadeira sob a maçaneta.
A madrugada chegou e fui despertada por baques na porta. Levantei em um átimo e peguei a segunda cadeira, me escondendo atrás da porta. Um, dois, três, quatro e cada vez mais forte. Ele iria abrir a porta. Ouvi seus gritos e xingamentos, enquanto lágrimas corriam como rio de meus olhos. Meu corpo tremia, minhas pernas estavam fracas de pavor. No décimo baque a maçaneta voou longe e com o susto fui presa fácil. O grito veio acompanhado das mãos de Loreto.
Me agarrou e gritei até a voz falhar. Ninguém para me ajudar, ninguém para me ouvir. Suas mãos imundas em meu corpo, seus lábios em minha pele, o corpo dele junto ao meu, sua ereção pronta para a violação.

-Loreto! NÃO! - ele sorriu e lutavamos inútilmente. Ele tinha mais força, não estava bêbado e facilmente me jogou na cama caindo sobre mim.

- Eu te quero! Eu te desejo loucamente, Inés!

Eu lutava com todas as minhas forças, inutilmente. Ele tentava tomar meus lábios e eu gritava; as lágrimas corriam.
Ele rasgava meu baby doll, senti a pele do ombro arder, pelo movimento brusco do pano sobre a pele. Foi quando ele me deu a oportunidade, arranhei o rosto dele e segui com uma cotovelada na cara. Corri, a roupa rasgada logo caiu ao chão me deixando de lingerie; rosto vermelho pelo desespero. Tentei pensar rápido em como encontrar a chave do carro e corri para o quarto de Loreto logo ao lado do meu. Lá encontrei as chaves sobre uma escrivaninha. Peguei uma camisa no guarda roupas e corri para a saída da casa, abri o portão e sorri. Entrei no carro, e me dediquei a colocar a chave, mas logo ouvi a porta do carro se abrir e fui arrastada pelos cabelos, gritei enquanto ele me jogava no chão, me xingando com todos os nomes possíveis. Ali mesmo, na grama e sob o céu estrelado, ele me bateu com chutes e tapas. Depois de quase me ver desmaiada ele levantou a camisa que eu vestia, rasgou a calcinha, gritei, ele tapou minha boca com uma das mãos e com a outra retirava o membro ereto. Eu gritava sob sua mão e as lágrimas rolavam. Com minhas mãos tentei o empurrar, no entanto, já não tinha mais forças. Ele usou as próprias pernas para abrir as minhas. Eu as fechava com toda força possível, enquanto inutilmente, usava as mãos para feri-lo. Mas, ele conseguiu se posicionar e então, vendo que eu não pararia de lutar, agarrou meu pescoço e abertou forte. Senti o ar faltar, arregalei os olhos, arranhei seus braços com as duas mãos; nada o detinha . Sem ar, sem força e o sentindo se aproximar para a penetração, vi crescer em mim um ódio terrível, segurei a cabeça dele com as duas mãos e quando o senti colocar a ponta do membro dele em minha intimidade, usei o polegar para perfurar os dois olhos dele. O sangue correu pelos meus dedos, o contras vermelho em minha pele pálida, e melou o rosto de Loreto, que gritou de imediato, largando meu pescoço na mesma hora. Mas, os gritos dele se tornaram em combustíveis para meu ódio e apertei mais e mais; sentindo o macio da mucosa ocular em torno de meus dedos, até que alguém o retirou de sobre mim.
O silêncio pairou como se a Terra tivesse parado de girar. Continuei deitada e fechei os olhos; ouvidos tapados para o mundo. Não sentia nada, somente as lágrimas que rolavam em meu rosto inerte.
Abri os olhos e admirei o céu estrelado por uns segundos que pareceram minutos. Silêncio. Não sentia meu corpo. Foi quando Victoriano apareceu entre mim e o céu.

- Inês? - pude ler os lábios dele, pois não ouvia nada. Ele me cobriu com sua jaqueta de couro preta. - Inês... - ele chorava, eu estava em choque. Olhei para mim, vi as mãos e braços sujos de sangue; as lágrimas caiam sem que eu pronunciasse uma única palavra, sem que eu escutasse um único ruído.
Victoriano me abraçou, eu não retribui pois não conseguia mexer meu próprio corpo. Ele me tomou no colo, eu escondi o rosto no pescoço dele até que ele me colocou no banco de copiloto de sua caminhonete.
Só então, voltei a ouvir os gritos de Loreto, vi viaturas e Benigno ao longe. Era como estar em uma bolha, eu via tudo, mas não ouvia nada direito, tudo estava distante. Victoriano discutia com um policial ao longe, tinha uma ambulância também. Fechei os olhos e deixei a escuridão tomar minha mente. Ainda sentia as mãos molhadas de sangue, mexi os dedos tentando discernir o sangue da sensação de mãos molhadas; o sangue se torna grudento com o tempo. Sentia o corpo quente, suado e a sensação do toque nojento de Loreto em mim. O hoje e o passado se misturaram em lembranças torturantes. Em flashes revi o primeiro estupro, o caixão com meu pequeno príncipe e o hoje, a mucosa dos olhos se abrir entre meu dedos e o sangue escorrer lentamente. Sentia satisfação e não pena. Me sentia suja, mais suja, mais imunda, mas satisfeita pelo que fiz com ele.
Então, a culpa por não sentir culpa.
A dor dilacerou meu coração e desejei morrer, não queria olhar para mais ninguém, não quero lembrar.
Eu perfurei os olhos de um homem com os meus próprios dedos e sinto remorso. Por mais que esse homem seja Loreto, ainda assim, isso mudará quem eu sou para sempre.
Deitei mais o banco do carro, sentia cada toque de Loreto como se ele ainda me tocasse e as lágrimas caiam mesmo com meus olhos fechados, soluços não demoraram a ecoar e fiquei na escuridão sentindo a dor, o odio, tentando respirar.

Continua...

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