CAPÍTULO 03

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- Que comecemos a diversão! – exclamou Daisy Campbell, virando-se para sua filha, que estava sentada na carruagem que agora estava parada em frente à renomada loja de costura.

Amelia, embora estivesse cética quanto à ideia de "diversão", sorriu para a mãe. Um sorriso amarelo, é claro, mas ainda assim um sorriso. Para ela, aquele momento era uma tortura disfarçada, uma obrigação imposta pela mãe. Quando a carruagem parou, Amelia saiu, seguindo sua mãe, agradecendo ao cocheiro por ajudá-las a descer os degraus da carruagem. Ao entrarem na loja, ela logo percebeu o olhar da costureira que a observava com um misto de curiosidade e consideração. Era certo que o pensamento da mulher passava pela cabeça: Quanto custará o vestido dessa jovem? As medidas dela não são exatamente comuns.

- Fico feliz em ver vocês aqui novamente, minhas leais clientes! – disse a costureira, apertando as mãos de Amelia com um sorriso educado, mas claramente satisfeito com o retorno das clientes.

Amelia apenas assentiu com um sorriso tímido, sentindo o peso do olhar da mulher em suas medidas. Sabia que a tarefa que sua mãe lhe impusera não seria fácil. Após um longo e minucioso processo de medições, o tempo pareceu se arrastar, mas finalmente, depois de dez longos minutos, Amelia deixou sua mãe resolvendo os detalhes dos modelos dos vestidos. Caminhou até a porta, pegando seu famoso livro, o qual carregava com ela a todo momento, mas, distraída como sempre, acabou esbarrando em alguém.

Com um forte impacto, ela caiu sentada no chão, e, no processo, o livro voou de suas mãos, aterrissando distante de onde ela estava.

- Está tudo bem? Você se machucou? – perguntou uma voz rouca, mas suavemente grave, que a fez saltar. Amelia olhou para cima, um pouco assustada. A figura de um homem estava ali, estendendo-lhe a mão. Ela ainda sentia o impacto da queda e, ao olhar para o homem, percebeu que ele estava visivelmente constrangido.

- Me perdoe, estava correndo atrás da caixa com o chapéu da minha irmã, que caiu e saiu rolando rua abaixo. Não vi o momento em que você apareceu na minha frente, e acabei derrubando-a. A propósito, meu nome é Noah Harrison, e o seu?

Com a voz cheia de gentileza e uma suavidade que parecia mais uma carícia, a voz daquele homem foi suficiente para fazer o rosto de Amelia se ruborizar. Ela, já desconcertada, se levantou com a ajuda do homem, evitando ao máximo olhá-lo nos olhos, e se limitou a olhar para os seus próprios pés.

- Estou ótima, não precisa se preocupar. Fui eu quem não olhei por onde estava andando. Muito obrigada pela ajuda. Me chamo Amelia Campbell. Agora, se me der licença, retornarei ao meu caminho. - Ela falou de forma tímida, tentando se afastar o mais rápido possível, com passos apressados em direção à carruagem. Mas, assim que subiu o primeiro degrau, ouviu a voz suave do homem mais uma vez.

- Ei, acho que isso é seu! – disse Noah, estendendo-lhe o livro que ela havia perdido: Senhorita Butterworth e o Barão Louco, de Sara Gorely, um romance gótico que Amelia havia começado a ler. Sem olhar para ele, agradeceu com um sussurro, pegando o livro rapidamente e entrando na carruagem, com a sensação de que o mundo havia se tornado um pouco menor e mais abafado ao seu redor.

Ela ficou quieta por um momento, sentindo o peso do silêncio ao seu redor. Mas a curiosidade a venceu, e com grande cautela, ela espiou para fora da carruagem. Lá estava o homem, de costas, subindo com uma caixa na mão, indo em direção a duas mulheres que o aguardavam. Ela observou seus ombros largos, a postura imponente, os cabelos castanhos com suaves ondulações. Seu corpo era alto, provavelmente cerca de 1,85m, e ele estava vestido com um elegante sobretudo azul marinho e calças escuras, finalizando o traje com botas de couro que pareciam feitas sob medida. Amelia teve que fechar os olhos por um momento, ciente de que se tivesse olhado mais uma vez para o rosto daquele homem, poderia ter se perdido no encanto de sua beleza.

Com um suspiro contido, ela se permitiu retomar a leitura, esquecendo rapidamente o brevíssimo encontro, mas algo dentro dela sabia que aquilo ficaria em sua memória por muito tempo.

Noah, por outro lado, não sabia o que estava acontecendo com ele. Já havia ouvido aquele sobrenome, Campbell, mas não conseguia identificar de onde. Ele pegou a caixa com o chapéu da irmã e foi em direção a ela, que estava com a mãe, ambas ocupadas com suas compras. Aquele passeio já estava ficando cansativo, e Noah, cansado de ser arrastado de loja em loja, estava mais do que pronto para que o dia terminasse. Quando a caixa do chapéu rolou para rua abaixo, ele correu atrás dela, mas acabou trombando com a jovem Amelia, fazendo com que ela caísse. Ele sentiu algo estranho ao olhar para ela, uma sensação de curiosidade, mas não conseguia entender o que era. Por que ela parecia tão desconfortável, como se estivesse se escondendo de algo?

- Muito obrigada, tonto! – disse sua irmã Clarissa, pegando o chapéu de Noah.

- Imagina, minha querida pirralha! – Noah respondeu com um sorriso, aliviado por tudo ter se resolvido.

- Bom, acho que depois do que aconteceu, melhor voltar para casa. – disse sua mãe, sugerindo que fosse hora de encerrar o dia de compras. Noah concordou rapidamente, sentindo-se exausto.

Mais tarde, no White's, ele encontrou seu amigo Sebastian Benjamin Thompson, Conde de Hanbury, sentado com uma caneca de cerveja. O lugar era um bom refúgio, e Noah sabia que precisava de um tempo para relaxar e tentar lembrar de onde havia ouvido falar do sobrenome Campbell. Assim que se sentou ao lado de Sebastian, ele percebeu que algo o estava incomodando.

- O que aconteceu dessa vez? – perguntou Noah, ao ver o semblante preocupado do amigo.

- Nada demais. Só trombei com uma moça e não consigo lembrar de onde conheço o sobrenome dela.

- Qual sobrenome? – perguntou Sebastian, curioso.

- Campbell. – Noah respondeu, frustado.

- Caramba! Com certeza é aquela garota que teve sua primeira temporada ridicularizada por toda Londres! Saíram até matérias no jornal! Você não se lembra da matéria chamada 'Baleia causa grande choque'? Tenho pena dela. Tudo bem que ela é gorda, mas não precisava ser humilhada assim, cara.

- Ah, claro! – Noah disse, batendo a mão na testa. Eu sabia que a conhecia de algum lugar. Não participo dessas festas, então me esqueci. Mas, concordo com você, os jornais foram terríveis com ela.

- Pois é. E o pai dela, para compensar, chegou até a triplicar o dote dela, mas acho que não deu certo. Nunca vejo ela dançando com ninguém e, se não me engano, já está em sua quarta temporada. – Sebastian continuou, fazendo uma careta ao tentar lembrar mais detalhes.

- Triplicou? – Noah perguntou, surpreso.

- Sim, triplicou. Mas o que é isso para você, não é mesmo? Eu pensei que você fosse o tipo de homem que não se interessasse por casamento. – Sebastian fez uma careta zombeteira.

- Cala a boca, Sebastian! – Noah disse, rindo. - Só fiquei surpreso com o interesse do pai em se livrar dela.

- Sei... – Sebastian respondeu, um sorriso torto no rosto.

- Bom, vou indo nessa. Tenho umas coisas para fazer em casa. Até mais, Seb! Quando quiser, vem jogar xadrez. Faz tempo que não nos encontramos.

- Pode deixar, é só marcar! Até mais, seu boras botas!

Noah não deu importância à brincadeira de Sebastian. Afinal, ele sabia que o amigo estava apenas brincando. Pegou seu cavalo e partiu para casa, onde precisaria passar o resto da tarde calculando as dívidas deixadas pelo pai, tentando entender o quanto precisaria para salvar as propriedades dos Harrison e manter o título de Duque.

Entrou no escritório localizado a direita da sala de estar e lá passou o resto da tarde calculando as dívidas deixadas pelo pai junto com a quantia que precisava para reerguer as propriedades dos Harrison, isso incluía o dinheiro que teria que emprestar para seus arrendatários e as reformas que deveriam ser feitas no vilarejo.
Após algumas horas de cálculos e raciocínios, ele percebeu que o dote da jovem Campbell, além de quitar todas as dívidas de sua família, ainda deixaria uma pequena quantia que poderia ser utilizada como dote para sua irmã Clarissa. Amelia Campbell, com seu dote elevado, parecia ser a única saída. Ele teria que se casar com ela, e o mais rápido possível, caso quisesse salvar o que restava de sua linhagem e seu nome.

A decisão estava tomada. Ele precisava fazer isso, ou tudo estaria perdido.

Distinta FaíscaOnde histórias criam vida. Descubra agora